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Obsessão pelas ordens, medalhas e carros de luxo

A obsessão pela falerística é um dos indicadores da degradação das elites. É eloquente a comparação da elite soviética dos anos 1930 (o período heróico da URSS) com a elite da Segunda República Polonesa.

General Tadeusz Komorowski não ganhou nenhuma batalha, mas teve umas 10 condecorações máximas da Polônia.

Edward Rydz-Śmigły

Mariscal Edward Rydz-Śmigły a única coisa que fez como militar foi correr do Exército Vermelho (que foi uma operação muito importante: Edward Rydz-Śmigły salvou seu exército), como consequência de uma só operação exitosa, esse mariscal foi o cavaleiro das dezenas das ordens polacas e das dezenas das estrangeiras.

General Gustav Orlich-Drescher foi uma piada de Deus (responsável pelas “colônias ultramarinas” da Polônia), mas também gostava muito das ordens e medalhas.

Mariscal Józef Piłsudski, o ditador da Segunda República Polonesa, o “avô” da nação polaca, não tinha complexo de inferioridade:

“Há coisas que vocês, polacos, não são capazes de compreender!.. Quanto eu poderia fazer, se governasse um outro povo”.

Jean-Bédel Bokassa

A elite polaca dos anos 1930 chegou ao nível do ditador do “Império” Centroafricano – Jean-Bédel Bokassa.

Que contraste com a elite soviética! O mariscal Semyon Timoshenko, o general Konstantin Rokossovsky (o comandante militar da origem polaca, mais famoso da história), o próprio generalissimus Stalin…

Mas ninguém é imune à degradação: a mesma elite soviética nos anos 1970 já “se polonizou” bastante, basta com olhar para as fotos de Leonid Brezhnev.

Segundo os elitólogos a Polônia é o caso clássico de um país limítrofe, um país que perdeu sua soberania, então a elite polaca virou uma simples ferramenta de controle sobre a plebe nos interesses dos países patrões. Assim as elites perdem a conexão com seus povos e se tornam ridículas.

Konstantin Rokossovsky

A Rússia também tem tendências da “limitrofização”: as elites russas da época do ditador Boris Yéltsin e de seu sucessor Vladímir Putin dão vergonha por seu infantilismo quase do nível “saudita”… Moscou está cheia de carros de luxo, quando o nível de desigualdade na Rússia é terceiro-mundista.

Tal “apartheid” das elites russas foi típico no período do Império dos Romanov,  resultado da infusão do modelo polaco no século XVII (quando a Polônia esteve pronta de conquistar a Rússia, mas no lugar da conquista deu para a Rússia seu modelo da administração: “as elites ocidentalizadas vs o povo escravizado”).

Leia mais:

As elites russas da época de Yéltisn-Pútin:

http://guiademoscou.blogspot.ru/2016/01/sobre-os-gemeos-catedral-de-cristo.html

O modelo da administração dos Romanov:

http://guiademoscu.blogspot.ru/2013/12/los-romanov-mi-historia.html

http://guiademoscou.blogspot.ru/2015/12/imperio-de-cabeca-para-baixo.html


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A moda russa

um rapero pro Putin, vestido de Jojlomá (obra de D.Simachov)

Se você tem interesse pela roupa russa do mercado popular, você pode consultar marcas como BeFree, Oodji, Incity, Ostin, que estão presentes em qualquer shopping de Moscou.

A loja on-line glance.ru também apresenta só os estilistas russos da mesma categoria.

Também você pode encontrar muitas marcas russas no shopping Tsvetnoi, que fica perto do Circo de Moscou no Boulevard Tsvetnoi.

Outra opção é conhecer a feira dos estilistas russos no shopping subterrâneo “Ojotniy Riad”, que fica na saída da Praça Vermelha para a rua Tverskaia.

As marcas russas do segmento superior estão apresentadas nas lojas exclusivas, as vezes essas lojas são equipadas com as salas de exposições.

Consulte as multimarcas russas, como

http://reddesigners.ru/ru/designers/rossijskie/

http://www.sundayupmarket.ru/participants/

http://roomchik.ru/

https://www.facebook.com/AUroom-250895545048003/

A loja on-line familiar (os suéteres, etc. são tecidos pelos parentes das donas da loja) http://mascva.ru/sale/

http://dressone.store/

hooligan style é clássico na Rússia (D.Simachov)

Em TsUM – Loja de Departamento Principal por sua sigla em russo (TsUM é o prédio gótico ao lado do Teatro Bolshoi) você pode encontrar a roupa da famosa adolescente russa, chefa de 100 lojas espalhadas por todo o mundo – Kira Plastínina.

Talvez que seja interessante a loja individual de Cyrille Gassiline.

É bastante famoso também o estilista Denis Simachev, seu salão-bar fica no centro de Moscou, pintado ao estilo de Jojlomá. Simachev foi primeiro quem captou a onda da nostalgia pela URSS: ele começou produzir as camisas com símbolos da URSS e com os retratos de Putin desde o ano 2004, hoje isso virou o mercado popular.

Outros nomes relevantes dos estilistas russos:

http://alenaakhmadullina.com/

http://alenaakhmadullina.com/

http://www.alexanderterekhov.com/ru/

http://annamiminoshvili.blogspot.ru/

http://www.inshade.ru/

https://www.mashatsigal.com/

http://www.novi-natali.ru/

http://alinaassi.com/

http://www.d-nastia.ru/

http://dashagauser.com/

http://www.chekrizova.ru/

http://norsoyan.ru/

http://www.nadianurieva.ru/

http://www.shapovalova.ru/

http://sofistrokatto.com/ru/

https://vassatrend.ru/

http://www.vivavox.ru/

http://www.yanastasia.ru/

http://www.2gt.ru/

http://www.eshipilova.com/

http://www.home-shoes.ru/


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o êxito do Ocidente e o fracasso do resto do mundo

O livro de Robert C. Allen “Global economic history: a very short introduction” (2011) é recomendado para todos nossos clientes.

O autor estadounidense analisa o êxito do Ocidente e o fracasso do resto do mundo (em particular são interessantes para nós os trajetos semelhantes da América Latina e Rússia).

Contudo Robert C. Allen não é adepto à teoria obsoleta de Max Weber (igual ao protestantismo, o catolicismo prospera nas “áreas de bem-estar”). Também ele não é membro da seita do institucionalismo econômico (a Inglaterra parlamentar teve muito menos liberdades que a França absolutista, e por isso seu “segredo” não foram as “instituições” nem os “valores liberais”).

Como regra ganham os países cujos estados conseguem concentrar o capital para descobrir, conquistar, manter e modernizar. É muito importante a conclusão de Allen que o fenômeno da modernização é motivado por altos salários e por certa igualdade (como mínimo no acesso à educação). Os países de salários baixos e da desigualdade social estão condenados a atraso, arcaização e culto de Ayn Rand.

“Bare-bones subsistence has further implications for social wellbeing and economic progress. First, people living on the bare-bones diet are short. The average height of Italians who enlisted in the Habsburg army fell from 167 cm to 162 cm as their diet shifted from bread to polenta. In contrast, English soldiers in the 18th century averaged 172 cm due to their better nutrition. (Today, the average man is 176–8 cm tall in the USA, UK, and Italy, while the Dutch are 184 cm tall.) When people’s heights are stunted for lack of food, their life expectation is also cut, and their health in general declines. Second, people living at subsistence are less well educated. Sir Frederick Eden, who surveyed labourers’ incomes and spending patterns in England in the 1790s, described a London gardener who spent 6 pence per week sending two of his children to school. The family bought wheat bread, meat, beer, sugar, and tea, and his earnings (£37.75 per year) were about four times subsistence (just under £10). If their income were suddenly cut to subsistence, vast economies would have had to be made, and who can doubt that the children would have been removed from school? High wages contributed to economic growth by sustaining good health and supporting widespread education. Finally, and most paradoxically, bare-bones subsistence removes the economic motivation for a country to develop economically. The need for more output from a day’s work is great, but labour is so cheap that businesses have no incentive to invent or adopt machinery to raise productivity. Bare-bones subsistence is a poverty trap. The Industrial Revolution was the result of high wages – and not just their cause”.

Ao mesmo tempo o autor é um membro do establishment acadêmico e por isso sua lógica às vezes falha. Ao contrário de Giovanni Arrighi Robert C. Allen não explica porque a hegemonia mundial passa da Venesia para Amsterdã, de Amsterdã para Londres e de Londres para Nova Iorque. Suas conclusões nem sempre são convincentes ou completas. Por exemplo, Robert C. Allen determina o modelo estándar de desenvolvimento que é uma suma de 1) criação da infraestrutura, 2) tarifas protecionistas, 3) banca nacional, 4) educação. Mas não está claro, por quê o modelo estándar não funcionou na Rússia dos Romanov, nos países latinos ou no Japão. O autor ignora o fato da dependência bancária destes países.

Sua explicação do colapso da URSS também é muito fraca. Mas é normal, é uma explicação entre centenas de elas (como também existem mais de 230 explicações do colapso da Roma Antiga).

Apesar de tudo isso o livro é interessante e até pode ser inspirador, porque não é tão banal como a maioria dos textos econômicos, patrocinados pelas seitas de Weber, Friedman e Hayek.

Leia nossas outras resenhas dos livros sobre a Rússia: 

Alexander Etkind “Colonização Interna”

 Vladimir Paperniy “Cultura Dois”

Alexandr Prójorov “Modelo russo da gerência”

Serguei Nefiódov e seu Análise Fatorial da História da Rússia


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O que levar de presente do Brasil para a Rússia?

– Uma garrafa de cachaça é um ótimo presente. A cachaça é semelhante à vodka caseira russa, conhecida como “samogon” e os russos vão gostar!

– Camiseta da Feb (Força Expedicionária) – os russos quase não sabem nada da participação brasileira na 2GM e eles vão gostar muito da história de como “a cobra fumou”. Aseguramos, que Camiseta da Feb vai ser muito mais original que uma camiseta da seleção brasileira!

– Café? É um presente universal, mas na Rússia se vende bastante café brasileiro, embora este café provavelmente seja falso. Por isto há de presentear com um café 100% autêntico. Erva mate? Pode ser, mas na Rússia ela é mais associada com a Argentina graças aos livros de Julio Cortázar. Não tem associação com o Brasil. Mas como os russos são campeões no consumo de chá, sem dúvida eles vão gostar da erva mate.

– Um disco da Bossa Nova? – legal! Mas o tema, igual ao café, é bastante famoso na Rússia. Não seria melhor levar um disco de Luiz Gonzaga? Os russos são super musicais, sem dúvidas eles vão ficar loucos pelos sucessos como “Pagode Russo” ou “A Vida de Viajante”! O acordeão é muito significativo para os russos. E o chapéu cangaceiro?! É um presente genial para acompanhar um disco de Luiz Gonzaga!

– Calça branca para homem. Melhor que seja do Rio de Janeiro! Parece estranho? Vou explicar. Pelo romance satírico russo “As 12 cadeiras” a calça branca do Rio de Janeiro virou para os russos um símbolo de êxito [1.]. O herói do romance é um aventureiro que considera a Rússia Soviética um país dos inocentes e sonha com enganar o “sistema”, ganhar um milhão e correr para o Brasil, para o Rio de Janeiro, que segundo ele é uma cidade chique, uma cidade de milionários, onde cada homem usa calça branca e nas ruas se dança o charleston intitulado “Minha menina tem uma coisa pequenina”. “Rio de Janeiro – o sonho de cristal da minha infância… 1,5 milhão de pessoas e todas estas pessoas usam as calças brancas”. O Rio de Janeiro de “As 12 cadeiras” é um satírico mito antagonístico à realidade soviética da pós-guerra civil dos anos 1920. O romance “As 12 cadeiras” tornou um dos livros mais lidos na língua russa. Muitas frases do romance hoje são provérbios e memes populares. Calça branca do Rio de Janeiro é um desses memes. Na URSS foram feitos vários filmes baseado neste romance, que também são atualmente uma clássica de ouro do cinema russo.

Claro que nossa lista breve trata-se só dos presentes geniais, mas qualquer presente, até o mais banal possível [2.], sempre é um presente e os russos lhe vão agradecer de todo coração.

  1. https://novaziodaonda.wordpress.com/2009/06/15/as-doze-cadeiras/
  2. Uma lista dos presentes mais banais do Brasil:  http://gazetarussa.com.br/blogs/2013/10/24/melhores_presentes_do_brasil_para_dar_a_um_russo_22447

Leia também: “Dicas para visitar os russos”

 


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Tour panorámico pela literatura russa

É impossível mencionar a todos os escritores e poetas russos num artigo. Há mais literários russos que as estrelas no céu. Vou falar só de alguns escritores reconhecidos mundialmente, que estão conectados com a Revolução, porque este ano celebramos o centécimo aniversário da Grande Revolução Russa.

Um dos museus mais impressionantes de Moscou é o Museu de Vladímir Maiakovski.

http://mayakovsky.museum/small/tour.html

Vladímir Maiakovski foi um poeta-futurista, radical bolchevique, que passou um tempo na prisão dos czares e na época soviética virou um ícone da Revolução Russa. É por isso que seu museu fica ao lado do prédio da KGB, que era uma “ordem dos cavaleiros da espada” da Revolução Russa.

Maiakovski foi bastante privilegiado, quando outros literários conservadores (ou simplesmente muito menos vanguardistas) ficaram no esquecimento e na pobreza. A tragédia pessoal de Maiakovski é uma tragédia da revolução russa. O poeta suicidiou.

Leia mais sobre Maiakovski em nosso blog:

http://guiademoscu.blogspot.ru/2010/07/mayakovski-117.html

Museu Casa de Máximo Gorki também vale muito a pena. Na época soviética a avenida principal de Moscou tinha nome desse escritor (como também a terceira cidade da Rússia Nizhniy Nóvgorod que se chamava simplesmente Gorki). Se Maiakovsi fosse um capitão da revolução, Gorki foi um dos generais. E logicamente sua casa foi o estado maior da literatura russa, que até agora guarda as listas de todos os visitantes. Antes de receber ao escritor proletário a casa pertencia a um dos milionários da época dos czares.

https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g298484-d302513-Reviews-Gorky_s_House_Ryabushinsky_Mansion-Moscow_Central_Russia.html

Museu finca de Liev Tolstói em Jamóvniki

Se Máximo Gorki foi nomeado para o prêmio Nobel 5 vezes, Liev Tolstói recusou o Prêmio Nobel 16 vezes. Liev Tolstói não gostava do prêmio Nobel, como também ele não gostava de Moscou. Não obstante pela causa de seus filhos ele teve que passar 19 invernos aqui. Liev Tolstói optou por uma casa simples, sem electricidade, sem aqueduto, localizada num bairro dos operários, fora do centro (que contraste com Máximo Gorki!). Justo no período de seu trabalho em Moscou Liev Tolstói virou um “espelho da revolução russa” e foi excomungado pela igreja dos Romanov.

https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g298484-d530937-Reviews-L_Tolstoi_s_Khamovniki_Memorial_Estate-Moscow_Central_Russia.html

Leia também sobre nosso Liev Tolstói Tour para Yásnaya Poliána.

Museu Apartamento de Mijail Bulgákov

Mijail Bulgákov tinha sido um soviet-cético (por analogia com eurocéticos), e por isso atualmente ele virou um dos escritores mais populares entre as elites da Rússia capitalista/anti soviética. Certas obras de Bulgákov foram super popularizadas nos anos 1980 para promover as ideias do darwinismo social e destruir o estado social na Rússia (hoje na Rússia segundo a estatística oficial 15% da povoação está abaixo da linha da pobreza). Ao mesmo tempo Bulgákov foi um gênio e um dos escritores mais favoritos de Stalin. Stalin pessoalmente preocupou por seu bem-estar (porque os chefes da literatura brigando pela atenção do poder costumavam subestimar a seus colegas: assim foi Boris Pasternak, responsável em parte pela morte do poeta russo Osip Mandelstam, assim foi Iosif Brodskii, que influiu muito em caminhos dos escritores emigrantes da URSS). O apartamento de Mijail Bulgakov fica ao lado do bairro onde começa a história do “Mestre e Margarida”.

http://bulgakovmuseum.ru/en/

Museu Casa de Antón Chéjov

Antón Chéjov é um dos dramaturgos mais conhecidos mundialmente, e a primeira vista ele tinha pouco a ver com a Revolução. É certo que Chéjov não foi tão crítico do regime dos Romanov como Liev Tolstói. Mas seu espírito apolítico, apateista refletiu bastante com os sentimentos pessimistas duma parte das elites russas, que não sabiam e nem queriam saber do país onde elas viviam.

https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g298484-d530913-Reviews-Chekhov_House_Museum-Moscow_Central_Russia.html

O roteiro pelos museus mencionados no mapa de Moscou (sugiro usar os ônibus e caminhar a pé):


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Embrulhamento dos russos

Um dos mitos sobre o “totalitarismo inerente” dos russos diz que os russos são totalitários, ou seja “fechados, rudes, com cara de poucos amigos, aborrecidos, atrasados mentalmente, super introvertidos e por isso propensos para uma monarquia absoluta ou um sistema unipartidário”, etc. porque as mães russas costumam enrolar seus bebês em cueiros apertados demais. Os cueiros apertados levam as pessoas para um regime apertado…

É ridículo este mito. Desde há muito as mães russas não praticam mais o “embrulhamento apertado”. Além disso a teoria de totalitarismo atualmente é considerada obsoleta, primitiva demais no próprio Ocidente.

Ao mesmo tempo é certo que as camponesas russas na época do pesadelo dos Romanov praticavam o “embrulhamento apertado” de bebês. Por que? Porque elas não tiveram tempo para cuidar de seus bebês! Para a segurança do bebê, a mãe o deixava “preso em cueiros”. As mães assim como os pais tinham que trabalhar muito, porque os camponeses eram literalmente escravos dos latifundiários “nobres”. Além disso o trabalho de verão era tão duro, que 80% dos bebês nascidos durante o verão morriam. As mães não tinham nem tempo nem leite para sustentar estas crianças. Os donos das escravas por seu capricho também puderam fazê-las amamentar com seu leite seus cachorros de lebréus.

A coisa mais interessante é que este “fenômeno” de sobre-exploração sádica não foi unicamente russo. A mesma história acontecia por todas partes. Por exemplo, na França, onde as mulheres empregadas na indústria de seda, também não tinham tempo para cuidar de seus bebês. As mulheres das cidades têxteis contratavam as amas de leite camponesas e enviavam seus bebês para as aldeias dessas camponesas, e “o índice da morte desses bebês reduz o otimismo sobre a natureza de gênero humano”. <1>. Deixar os bebês “presos em cueiros” foi uma das soluções. Assim como na Rússia, na França a maioria destes bebês morriam pelo déficit da atenção de adultos. O abandono das crianças também acontecia em massa na Europa na época feudal e proto-industrial (XII-XVIII). Obviamente o “embrulhamento apertado” de bebê foi a primeira fase do abandono. E o índice de abandono em Paris do século XVIII, até a revolução, foi de 40% de todos os bebês nascidos na capital! A dinâmica de abandono/mortalidade infantil nas cidades da França estava determinada pela dinâmica do preço de trigo de centeio. <2> Assim como a mortalidade dos bebês dos camponeses russos, que produziam esse trigo mesmo.

Mas o “embrulhamento apertado” e abandono de bebês em massa na França não se consideram uma causa do totalitarismo francés (nem do colaboracionismo total com os nazistas alemães), por isso é muito estranho que o “embrulhamento apertado” é considerado por alguns expertos como uma causa importante dos regimes de “mão dura” na Rússia.

Para saber mais sobre o assunto, seguem-se alguns links abaixo

  1. Handbook on Evolution and Society: Toward an Evolutionary Social Science.  Alexandra Maryanski, Richard Machalek, Jonathan H. Turner
  2. Leia a biografia do livro Abortion and woman’s choice: the state, sexuality, and reproductive freedom/Rosalind Pollack Petchesky, números 78 e 79.
  3. Reinhard Sieder. The social history of the family.

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Latinização do espaço pós-soviético

24 de Maio, festa da escritura cirílica na Rússia

A Rússia, desideologizada e desindustrializada pelas reformas de Yéltsin e Putin está se tornando cada vez menos atrativa para seus vizinhos. O Cazaquistão, segundo seu presidente vitalício, Nursultan Nazarbayev, deve deixar até o ano de 2025 o uso do abecedário cirílico e mudá-lo completamente pelo latino. As elites do Quirguistão apoiam a decisão do Cazaquistão e também planejam para os anos 2030-2040 latinizar sua grafia.

Falamos de dois países aliados da Rússia, que formam juntos a União Económica Euroasiática e, além disso, nós temos uma aliança militar segundo o Tratado da Segurança Coletiva, ratificado em Tashkent em 2002.

Outro país vizinho da Ásia, o Uzbequistão, já está latinizado desde o ano 1993. O Azerbaijão também desde o ano 1993. O Turcmenistão desde o ano 1996. O Uzbequistão e o Quirguistão já foram antes os anfitriões das bases militares dos EUA. Economicamente, a região é cada vez mais dependente da China, do Irã e da Turquia.

embaixadores do Ocidente, aguardando a latinização da Rússia (foto tomada na embaixada dos EUA ontem)

Obviamente recusando o abecedário cirílico as ex repúblicas da União Soviética recusam a língua russa e insinuam aos russos que moram nesses países “go home”. Tal decisão das elites oficialmente sempre é motivada pelo desafio da modernização. Ou seja, a Rússia pós-soviética já não é vista pelas elites dos povos mais amigáveis como um país modelo a seguir. Em sério, que tecnologias, sejam industriais, econômicas e humanitárias pode exportar de fato a Rússia atual? Segundo o acadêmico russo e reitor do Instituto da Ciência e Tecnologias Skólkovo, Alexandr Kuleshov a brilhante escola soviética hoje ficou absolutamente destruída: “A Rússia está de novo na situação do ano 1929. Ainda temos a Ciência, mas não temos mais a engenharia. De novo precisamos de contratar estrangeiros para ensinar nossos especialistas que vão ensinar as massas”. [1.] Então se a propria Rússia reconhece seu atraso catastrófico, porque os vizinhos tem que esperar quando seu irmão mais velho aprenda?

A pior notícia é que a ruptura linguística com a Rússia só finaliza o processo da separação quase total. Vamos ver como foram ligados os países na URSS:

  • Pelo complexo industrial. Mas hoje este complexo está quase destruído pela economia de mercado. Os povos irmãos, que antes cooperavam, hoje são concorrentes nos mercados mais primitivos, tais como de petróleo, gás, metais, etc.
  • Os povos da URSS foram ligados pelo complexo energético, que hoje é um tema de intermináveis disputas, brigas e guerras sobre o preço de gás ou petróleo.
  • O sistema das vias férreas une unos aos otros, mas essas vias são substituídas cada vez mais pelo transporte rodoviário (graças a tarificação absurda das vias férreas).
  • A unidade cultural é destruída pelos nacionalismos [2]. Mimados pelas elites, os nacionalismos só fazem os povos sentirem as suas diferenças e procuraram as causas para não sofrer do complexo de inferioridade. Os nacionalismos terceiro-mundistas ativaram os processos da ocidentalização e orientalização. Se a Ucrânia se poloniza (sonha em repetir o “êxito” da Polônia), a Bielorrússia se lituaniza (vive a influência da Lituânia), o Cazaquistão, o Quirguistão, o Uzbequistão, o Turcmenistão e o Azerbaijão se aturquizam (se relacionam cada vez mais com a Turquia), quando o Tadjiquistão se apersianiza pela proximidade com o Irã. Geopolitica e geoeconomicamente a região da Asia Central é cada vez mais subordinada a China (mediante a Organização para Cooperação de Xangai).

E a Rússia? Hoje quando os filhos das elites russas em massa moram em Inglaterra, os EUA, etc. É possível que a Rússia mesma opte por latino?

O tempo quando os milhões dos estudantes estranjeiros aprendiam russo e cirílico para importar as tecnologias soviéticas para América Latina, Asia, África, Europa do Leste parece um sonho.

  1. https://www.znak.com/2016-06-28/glava_skolteha_otkrovenno_rasskazal_o_katastrofe_v_rossiyskom_inzhenernom_obrazovanii
  2. os monmentos à Vitória da URSS na 2GM e os monumentos à amizade dos povos são destruidos tanto nos países bálticos, Ucrânia e Georgia, como em Uzbequistão e Quirquistão.

Leia mais:

http://guiademoscou.blogspot.ru/2016/01/sobre-os-gemeos-catedral-de-cristo.html

http://guiademoscou.blogspot.ru/2016/01/por-que-putin-tem-medo-de-lenin.html

http://guiademoscou.blogspot.ru/2015/12/imperio-de-cabeca-para-baixo.html


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Mar de minha filhinha

Minha filhinha de 3 anos me pergunta sobre a grande âncora na Praça Cesar Kúnikov… Hmmm. Lhe explico que antes na Praça Cesar Kúnikov havia um cinema, chamado “Novorossiysk” – em honra de uma cidade portuária do Mar Negro. Assim, a conexão entre a âncora e o mar fica bastante evidente.

Minha filha sabe o que é uma âncora, só não entende porque a âncora está na praça. Hoje o cinema “Novorossiysk” já não existe. Mas a âncora perdura em seu lugar.

Não contei a ela que a Praça Cesar Kúnikov tem o nome de um herói da Grande Guerra Pátria. Cesar Kúnikov foi comandante de um pelotão de desembarque que conseguiu retomar dos nazistas um ponto estratégico no Mar Negro justo ao lado da cidade de Novorossiysk. Só falei da cidade portuária, mar, cinema, que já não existe. Mas minha filha não aceitou uma explicação tão chata…

Não, pai, você está errado! Antes aqui não havia nem rodovia, nem prédios, nem cinema, nem esse bairro – nada, senão um mar! Então essa âncora é de um barco, que navegou por esse mar. O barco afundou, todos os passageiros morreram e a âncora ficou nesse lugar. Depois a água foi embora, veio a gente e a gente construiu tudo que temos agora aqui: rodovia, prédios, cinema, etc. Entendeu?

Eu entendi que minha filha é uma guia instintiva, sabe inventar as histórias melhor que seu pai…


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Fiódor Dostoiévski sobre a Rússia dos Romanov:

Um monólogo modelo de um liberal russo do século XIX, desenhado por Fiódor Dostoiévski:

“…em todo o mundo é principalmente na Rússia que hoje qualquer coisa pode acontecer sem a mínima resistência. Compreendo bem demais porque os russos de condição estão todos debandando para o estrangeiro, e em número cada vez maior a cada ano que passa. Simplesmente por instinto. Se o navio está afundando, os ratos são os primeiros a fugir. A Santa Rússia é um país de madeira, miserável e… perigoso, um país de miseráveis orgulhosos em suas camadas superiores, enquanto a imensa maioria mora em pequenas isbás de alicerces instáveis. Ela ficará contente com qualquer saída, basta apenas que lhe expliquem bem. Só o governo ainda quer resistir, mas fica agitando um porrete no escuro e batendo sua própria gente. Aqui tudo esta sentenciado e condenado. A Rússia como é não tem futuro. Eu me tornei alemão e considero isso uma honra para mim” (extraído do livro “Os demônios”).

É surpreendente como essa posição ainda seja atual hoje, no século XXI, por causa da restauração do capitalismo periférico nos anos 1991-2017, muito semelhante ao estilo dos últimos Romanov.


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Liev Tolstói sobre Moscou

Liev Tolstói sobre Moscou:

“Fedor, pedras, luxo, pobreza. Devassidão. Se reuniram os malfeitores, que roubaram o povo, eles recrutaram os soldados, juízes para proteger sua orgia, e banqueteiam. O povo não tem mais nada a fazer se não sacar o roubado, aproveitando-se das paixões dessa gente”.

Essa característica se tornou outra vez atual depois da restauração do capitalismo periférico na Rússia, semelhante ao regime da Rússia dos Romanov. Mas Moscou ainda não é caracterizada pelo fedor – a infraestrutura soviética segue funcionando bem: o transporte público ainda é bastante ecológico (metrô, bondes, trolleys). Os sistemas de aquecimento, geração da energia estão centralizados e bem pensados embora estejam semi-abandonados pelas “reformas” e privatarias de Yéltsin e Putin.

Umas imagens da Rússia dos Romanov que nós tinhamos perdido:

Tomando chá em Mytíshchi, V.Perov

Morta afogada, V.Perov

Troika, V.Perov

Execução dos rebeldes de Pugachov. V.Perov

mulheres russas, arrastando os navios dos ricos

zelador, indicando o quarto por alugar para uma mulher nobre. V.Perov

Vagabundos. Sem casa. V.Perov.

Leilão das coisas de um mau pagador. V.Perov

Num boulevard. V.Makóvski

Benção de um próstibulo. V.Makóvskiy