Embrulhamento dos russos

Embrulhamento dos russos

Um dos mitos sobre o “totalitarismo inerente” dos russos diz que os russos são totalitários, ou seja “fechados, rudes, com cara de poucos amigos, aborrecidos, atrasados mentalmente, super introvertidos e por isso propensos para uma monarquia absoluta ou um sistema unipartidário”, etc. porque as mães russas costumam enrolar seus bebês em cueiros apertados demais. Os cueiros apertados levam as pessoas para um regime apertado…

É ridículo este mito. Desde há muito as mães russas não praticam mais o “embrulhamento apertado”. Além disso a teoria de totalitarismo atualmente é considerada obsoleta, primitiva demais no próprio Ocidente.

Ao mesmo tempo é certo que as camponesas russas na época do pesadelo dos Romanov praticavam o “embrulhamento apertado” de bebês. Por que? Porque elas não tiveram tempo para cuidar de seus bebês! Para a segurança do bebê, a mãe o deixava “preso em cueiros”. As mães assim como os pais tinham que trabalhar muito, porque os camponeses eram literalmente escravos dos latifundiários “nobres”. Além disso o trabalho de verão era tão duro, que 80% dos bebês nascidos durante o verão morriam. As mães não tinham nem tempo nem leite para sustentar estas crianças. Os donos das escravas por seu capricho também puderam fazê-las amamentar com seu leite seus cachorros de lebréus.

A coisa mais interessante é que este “fenômeno” de sobre-exploração sádica não foi unicamente russo. A mesma história acontecia por todas partes. Por exemplo, na França, onde as mulheres empregadas na indústria de seda, também não tinham tempo para cuidar de seus bebês. As mulheres das cidades têxteis contratavam as amas de leite camponesas e enviavam seus bebês para as aldeias dessas camponesas, e “o índice da morte desses bebês reduz o otimismo sobre a natureza de gênero humano”. <1>. Deixar os bebês “presos em cueiros” foi uma das soluções. Assim como na Rússia, na França a maioria destes bebês morriam pelo déficit da atenção de adultos. O abandono das crianças também acontecia em massa na Europa na época feudal e proto-industrial (XII-XVIII). Obviamente o “embrulhamento apertado” de bebê foi a primeira fase do abandono. E o índice de abandono em Paris do século XVIII, até a revolução, foi de 40% de todos os bebês nascidos na capital! A dinâmica de abandono/mortalidade infantil nas cidades da França estava determinada pela dinâmica do preço de trigo de centeio. <2> Assim como a mortalidade dos bebês dos camponeses russos, que produziam esse trigo mesmo.

Mas o “embrulhamento apertado” e abandono de bebês em massa na França não se consideram uma causa do totalitarismo francés (nem do colaboracionismo total com os nazistas alemães), por isso é muito estranho que o “embrulhamento apertado” é considerado por alguns expertos como uma causa importante dos regimes de “mão dura” na Rússia.

Para saber mais sobre o assunto, seguem-se alguns links abaixo

  1. Handbook on Evolution and Society: Toward an Evolutionary Social Science.  Alexandra Maryanski, Richard Machalek, Jonathan H. Turner
  2. Abortion and woman’s choice: the state, sexuality, and reproductive freedom/Rosalind Pollack Petchesky, números 78 e 79.
  3. Reinhard Sieder. The social history of the family.
  4. Graham Robb. The Discovery of France.

1 Comment

admin

9 noviembre, 2018 at 10:37 am

Lendo Graham Robb sobre os “tours d’abandon”:

Mesmo no início do século XX – escreve Graham Robb – as relações entre adultos e crianças no campo não eram sentimentais. As crianças eram servidores gratuitos, os pais não tiravam fotos delas. Milhares de crianças foram abandonadas anualmente por causa da pobreza. Na Provença entre 1854 e 1859, as 1258 crianças foram colocadas em um barril rebolcaste, instalado na parede dum hospital local – dentro do barril havia palha e cobertores, para que as mães pudessem deixar seus filhos lá sem serem reconhecidas. E as crianças puderam aproveitar os “tours d’abandon”. Em 1861 tais tours foram proibidos, então as crianças desde então simplesmente as deixaram morrer na rua.

Em 1869, mais de 7% das crianças nascidas na França não eram reconhecidas pelos pais e cada terço delas era abandonado. Houve negócio das “produtoras de anjos”, assim foram chamadas as mulheres, que por dinheiro cuidaram das crianças indesejadas de tal jeito que as coitadas morreram muito rapidamente.

Até 1779, por lei, as freiras de Paris tinham que cuidar de crianças indesejadas, produzidas em massa nas províncias. Dos lugares tão distantes como Bretanha, Loire, Auvergne andavam para Paris os burros, carregando as caixas e as cestas cheias das crianças. As crianças eram drogadas com álcool, pois as distâncias eram longas e as cestas estavam cheias como latas de sardinhas, os bebês mortos eram jogados nas calçadas, como lixo. Os operadores dos burros geralmente conseguiam trazer cerca de 10 crianças para a capital – eles eram pagos pelo número das crianças, mas 3 dias depois da bem-vinda a Paris, as 9 crianças das 10 morreram.

Assim foi a vida em um dos impérios do Centro do Mundo – na bela França! – ela não era melhor na Inglaterra de Charles Dickens, um país que manteve sua hegemonia mundial até a IIGM!

https://books.google.ru/books?id=7sx5CgAAQBAJ&pg=PT79&lpg=PT79&dq=Graham+Robb+tours+de'abandon&source=bl&ots=d0TqToq2Yr&sig=fHzGiA1lBlrt5ldM-cyD5Bu_Cbc&hl=ru&sa=X&ved=2ahUKEwic6te_98beAhWhk4sKHfJeBpQQ6AEwC3oECAcQAQ#v=onepage&q=Graham% 20Robb% 20tours% 20de’abandon & f = false