“Um tal. 1917”

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“Um tal. 1917”

Está se aproximando o dia 7 de novembro de 2017, que é o dia que se comemora o centésimo aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917. O evento, em geral, é ignorado na Rússia, mas o oficialismo tem que fazer algo, não tem? Porque, sem dúvidas, o interesse mundial pela Revolução Russa é grande, e o próprio povo russo ainda não se esqueceu totalmente da mudança que levou a Rússia de República das Bananas (os últimos Romanov) para uma superpotência (URSS). Ainda que as gerações jovens sejam idiotizadas pela propaganda da derrota e da restauração dos anos 1985-2017.

No museu oficialista de arte contemporânea “Galeria Tretyakov do século XX” foi aberta há pouco tempo a exposição “Um tal. 1917”. Sem chamar muito a atenção, claro… Quando o oficialismo quer promover algo, ele promove por todos os canais de televisão, nos horários de grande audiência. Falam sobre alguma chegada das relíquias de São Nikolai à Rússia e assim se formam as filas intermináveis para venerar essas relíquias (embora que em muitas igrejas russas SEMPRE haja relíquias de São Nikolai e por isso não deve haver agiotagem nenhuma). Então, não há barulho nenhum pelo motivo da exposição “Um tal. 1917”. Mas a exposição é interessante para compreender a postura do oficialismo.

Quanto à arte visual russa, sem falar da iconografia ortodoxa, o “monopólio natural” da Rússia é a vanguarda soviética: Tatlin, Rodchenko, Kandinsky, Malevich, Chagall, Deineka, Petrov-Vodkin, etc. São os ícones da arte do século XX, os nomes inseparáveis da Revolução Russa. Por isso a tarefa do oficialismo reacionário é no mínimo separá-los da Revolução e no máximo, se são absolutamente inseparáveis, desprezá-los.

A mensagem da exposição dedicada ao aniversário da revolução que o museu principal do país quer enviar para o público é seguinte: a democracia é muito questionável… Por isso a exposição se abre com o “desmascaramento” do “mito do povo russo”. Desde Fyodor Dostoiévski, os intelectuais russos tratavam o povo russo como a única fonte de verdade, como um povo “porta-Deus” (portador da ideia de Deus). Todo o movimento intelectual russo girava em torno do populismo, no sentido de libertar o povo escravizado pelos Romanov (que levaram o nosso povo até quase um estado animal). Os sucessos do período soviético na ciência, arte, esporte, guerra e economia são uma consequência da realização deste sonho dos populistas russos. Então, a visão atual do oficialismo é diferente, o povo não é “portador de Deus”… Os curadores da exposição “Um tal. 1917” destacam a obra de Boris Grigoriev, que apresentou o nosso povo como uma plebe. Que caras cruéis, ignorantes, perigosas… Lembre da russofobia de Ivan Bunin (premiado por sua russofobia com o Nobel em 1933): “Suas vozes são uterinas, primitivas. Os rostos das mulheres são como da Chuváchia, da Mordóvia, os rostos dos homens, todos como regra, são criminosos, alguns são diretamente de Sakhalin. “E quantos rostos são pálidos, de maçãs salientes, surpreendentemente assimétricos entre a plebe russa – quantos são os indivíduos atávicos, fortemente amassados no atavismo mongol!” (extraido dos “Dias malditos”, um livro de Bunin, onde o autor sonha com a ocupação da Rússia pelos alemães).

Claro que os conteúdos principais da exposição são: Tatlin, Rodchenko, Kandinsky, Malevich, Chagall, Deineka, Petrov-Vodkin, etc. Mas no final, para que o espectador não se esqueça da mensagem do oficialismo, oferecem um “epílogo” do qual se pode deduzir que é provável que todos os gênios da arte soviética tivessem uma moralidade dupla e que talvez trabalhassem de um jeito genial contra sua vontade, pelo medo, etc. Assim o oficialismo profana a coisa mais sagrada da arte russa: a vanguarda soviética.


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Fiódor Dostoiévski sobre a Rússia dos Romanov:

Um monólogo modelo de um liberal russo do século XIX, desenhado por Fiódor Dostoiévski:

“…em todo o mundo é principalmente na Rússia que hoje qualquer coisa pode acontecer sem a mínima resistência. Compreendo bem demais porque os russos de condição estão todos debandando para o estrangeiro, e em número cada vez maior a cada ano que passa. Simplesmente por instinto. Se o navio está afundando, os ratos são os primeiros a fugir. A Santa Rússia é um país de madeira, miserável e… perigoso, um país de miseráveis orgulhosos em suas camadas superiores, enquanto a imensa maioria mora em pequenas isbás de alicerces instáveis. Ela ficará contente com qualquer saída, basta apenas que lhe expliquem bem. Só o governo ainda quer resistir, mas fica agitando um porrete no escuro e batendo sua própria gente. Aqui tudo esta sentenciado e condenado. A Rússia como é não tem futuro. Eu me tornei alemão e considero isso uma honra para mim” (extraído do livro “Os demônios”).

É surpreendente como essa posição ainda seja atual hoje, no século XXI, por causa da restauração do capitalismo periférico nos anos 1991-2017, muito semelhante ao estilo dos últimos Romanov.