Slow Food Russo

Slow Food Russo

Alguns países têm associações gastronómicas fortes: pizza é italiana, sushi é japonês, etc. Até certas nações podem ser xingadas com termos pejorativos culinários: os franceses de “frogs”, por exemplo (pelos ingleses y por todo o mundo) e os russos sempre são “cegos de vodka” [1]. Claro que essas associações “de barriga” são de burla, devem ser as últimas na lista (são associações de padrão baixo). Ao mesmo tempo o próprio fato de projetar sua tradição gastronômica no imaginário mundial é uma característica do protagonismo histórico. É curioso também que países hegemônicos como Inglaterra e EU de Norteamérica não tenham boa fama de suas cozinhas.

E a Rússia, que no seu ápice controlava quase meio mundo? A Rússia tem uma das cozinhas mais ricas na Galáxia. Vamos apresentá-la!

Antes de tudo a cozinha russa é um “slow food”. As lareiras dos russos são muito grandes e pesadas (sempre com seu próprio fundamento), porque são vitais para a sobrevivência no país mais frio do mundo. Durante o inverno as lareiras aqui estão em função 24 horas (primeiro o tijolo absorve o calor de fogo, e logo o retorna, as temperaturas dentro da lareira variam de 300 a 60 graus) e como a lareira depois de consumir suficiente lenha continua trabalhando muitas horas no regime do “slow fire”, é oportuno cozinhar algo devagar em potes. Dahí vem o “slow food” russo [2]. A lareira russa é para refogar, gratinar, secar. Nunca no fogo aberto, ou seja é um processo muito sano: a comida sai delicada, suculenta, com todos os elementos conservados.

Os ingredientes para mingaus, sopas, guisados e pastelões russos são florestas, rios e campos da Rússia. As florestas dão cogumelos, carne de caça (também frutinhas, mel e ervas), os rios dão peixe (os russos antigamente comiam mais peixe que carne) e os campos dão grãos e raízes alimentícios.

Liev Tolstói, o vegetariano mais famoso da Rússia

Sopas de beterraba, borsch, e de repolho, schi (vegetarianas ou com carne), mingau de trigo mourisco, conhecido no Brasil, como sarraceno (vegetariano ou com carne) [3], carne com batata e cogumelos em caldeirão – estas são as comidas tradicionais do “slow food” russo.

Pese que o cardápio russo seja tão diversificado, como a Rússia mesma (cada uma das 85 regiões da atual Rússia atual tem seus pratos típicos ou seu sotaque para fazer os pratos nacionais), a cozinha russa tem certos elementos fundamentais, dos quais os russos ficam com saudade quando vão ao exterior: entre eles o pão preto (de trigo de centeio), o “salo”, toucinho do dorso do porco, curado em salmoura, o trigo sarraceno, o arenque salgado e os produtos lácteos russos, cuja variedade é infinita.

Molokó (leite em russo) expulsando “Coca-Cola”

Uma explicação da variedade láctea são as distâncias russas, que tomam difícil conservar a leite fresco. Ao mesmo tempo alguns peritos opinam, que a instabilidade permanente da vida russa não deixou o nosso povo desenvolver a variedade de queijos. Dos lácteos podemos mencionar aqui “smetana”, uma espécie de creme de leite, só mais azedo, saudável e rico [4], “ryázhenka”, um iogurte, fermentado do leite cozido, “kefir”, um leite fermentado de um jeito muito especial do Cáucaso russo [5] e tvorog, uma espécie de queijo quark, que em alguns países como a Itália, Argentina, Paraguay e Uruguay tem um produto semelhante etiquetado de Ricotta.

uma familia russa fazendo os “pelmeni”

Alguns produtos se integravam à cozinha russa mediante o fatum geopolítico da Rússia. Assim os mongóis trouxeram a Rússia no século XIII os “pelmeni”, os trouxeram da China [6]. Os pelmeni sempre são de carne (até da carne do urso) ou de peixe. Quando os varenikes podem ser de batata, repolho, ou até podem ser doces – de tvorog. Por certo na Itália os pelmeni são conhecidos como ravioli (estes ravioli, igual que a pasta famosa foram trazidos por Marco Polo da China mesma, onde Marco Polo trabalhou para os mongóis, donos da China nos séculos XIII-XVI). O prato mais famoso do Cáucaso é shashlyk, espetinho de carne, assada no fogo depois de certa têmpera. O shashlyk nos anos 1970 se tornou tão popular que quase substituiu a atração russa de pescar e fazer no fogo a sopa de peixe. Do Cáucaso veio também o kefir, do qual falamos acima. Sua história é romântica. Uma especialista russa da indústria alimentícia Irina Sájarova foi enviada numa missão especial ao Cáucaso para descobrir o segredo do kefir. Bekmurzá Baichorov, um príncipe da Kabardá, se apaixonou por ela e a sequestrou, mas foi apresado pela polícia. Irina Sájarova perdoou seu crime, pedindo como recompensa 5 kilos dos “grãos de Maomé”, os microrganismos simbióticos necessários para produzir o kefir. Assim, o kefir primeiro se comercializou ao início do século XX …nas farmácias como um remédio para as doenças do tubo digestivo, mas logo se tornou popular (é comum para quitar a ressaca). Da Ásia Central veio o plov/pilaf, um arroz especial, cozido em zirvak, um líquido que se prepara num caldeirão especial, onde 1) fritamos cebola na gordura de cordeiro, 2) logo fritamos lá carne, 3) acima pomos a cenoura, cortada de palitos longos, 4) preenchemos tudo com água, 5) fervemos tudo com alho e especiarias uns 40 minutos, 6) depois da magia de várias horas cozinhamos lá um arroz especial durante uns 10 minutos.

A elite russa com frequência padece o ocidentalismo, assim as modas da culinária europeia todas depois de ser aperfeiçoadas estão presentes na cozinha russa. Basta com dizer que a “salada russa” na Rússia é conhecida como “Olivié” pelo sobrenome de um chef francês, quem desenhou esse prato para seu restaurante em Moscou. Ou seja para os russos esta salada soa francês. E é verdade que segundo as pesquisas da opinião pública o olivié se considera um dos pratos mais queridos pelos russos, associado com a festa do Ano Novo, produto duma ecléctica típica para a cultura dos russos.

O fator climático dividiu o ano culinário russo nas temporadas: o inverno é tempo das verduras e frutinhas conservadas (mediante sua fermentação, salmoura, cozimento). Fermentam o repolho, salmouram tomates, pepinos, cogumelos, patissones, etc., cozinham em xarope de açúcar framboesa, arandanos, maçãs, morangos (com frequência são frutinhas selvagens – das florestas) e muitas outras.

E para beber? Sem falar da vodka, nós russos bebemos muito chã (que pode ser de ervas bem diferentes), chocolate, cada vez mais café, tradicionalmente bebemos compotas [7], morses [8], kisseis [9], e até seiva de bétula! E a Coca-Cola russa se chama Kvas, um produto da fermentação de cevada só quase sem álcool [10]. De sobremesa comemos mil tipos de pasteis, crepes, tortas doces, etc., frequentemente com mel (também há mil tipos de mel) ou com frutinhas cozidas em xaropes de açúcar.

a cozinha russa não é um fast-food

Se você quer provar as comidas exóticas russas, lhe podemos sugerir os pratos, como o aspic russo, jolodets – na Rússia sempre é um caldo de carne, que se acompanha com rábano picante ou mostarda. Também é recomendável a salada baseada no arenque, que se chama literalmente arenque de baixo do abrigo de pele, é um “abrigo de pele”, formado de várias camadas de beterraba e batata cozidas e banhadas na maionese, que cobrem o arenque salgado na camisa de cebola. Tanto arenque baixo abrigo de pele, como jolodets são ideais para acompanhar vodka (que os russos bebem de um gole). Também pode ser interessante a sopa russa de verão (fria), que se chama okroshka, são pepinos, batata e ovos cozidos, verduras e carne cortadas finamente e logo preenchidos com kvas, se acompanha com smetana.

Comentarios:

  1. Até na religião, seja ortodoxa ou católica, o alcoolismo está súbdito ao pecado de Gula.
  2. A vida humana sempre foi determinada pela questão do aquecimento. A palavra “hogar” em espanhol vem da palavra latina “focus” ou seja “fogo”, assim na língua russa também a palavra casa de camponês, “izba”, vem do verbo “fazer fogo, aquecer”. Só o “focus” russo ocupava uma terceira parte de casa! Depois de um incêndio a lareira ficava em seu lugar e a vida se continuava. Por isso durante a IIGM Hitler deu uma ordem especial para destruir as lareiras russas (depois de queimar os povoados), mas a lareira russa venceu e a calavera do Hitler com um buraco de bala suicida, queimada, hoje se guarda num arquivo da FSB (outrora KGB).
  3. Trigo mourisco é conhecido também como “trigo sarraceno”, os russos o chamam “trigo griego” – se come na Rússia, Ucrânia e China, quando em Europa se vende só nas lojas eco ultra. O trigo mourisco na Rússia e Ucrânia se considera comida estratégica e a mais económica, a subida do preço de ele pode provocar uma crise social.
  4. Smetana é indispensavel para borsch, sopa de beterraba.
  5. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kefir
  6. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Pelmeni
  7. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kompot
  8. https://es.m.wikipedia.org/wiki/Mors_(bebida)
  9. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kissel
  10. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kvas