“Escola da vida. Memórias das crianças do cerco de Leningrado”

“Escola da vida. Memórias das crianças do cerco de Leningrado”

Meu exemplar do livro tem uma queimadura no bloco das páginas, onde as tocamos com os dedos para folhear. Pensei que este livro foi desenhado de tal jeito a propósito, mas não, o livro realmente sofreu uma queimadura. Encontrei este livro num bookcrossing.

Há muitas memórias da Grande Guerra Patriótica. “A guerra não tem rosto de mulher”, uma coleção das entrevistas das mulheres (este livro de S.Alexievich foi escrito antes da degradação intelectual da autora). Há memórias das crianças da Bielorrússia, onde havia campos de concentração para as crianças – os nazistas lhes tiravam o sangue para fazer transfusões a seus soldados.

Então agora acabo de ler as memórias das crianças, que viveram o cerco a Leningrado.

Apagão total.

Comida baseada na cola de madeira estava uma delícia. Igual ao “сafé da terra”, ou seja da terra encharcada com algo de açúcar e cinzas, resultado do bombardeio consciente dos nazistas dos Armazéns Badáievskie. 

Não funcionam aquedutos, nem tubulações para os esgotos. Dejetos humanos estão nos patamares de escadas, nas ruas.

Os fogões improvisados são usados só para aquecer a “comida”, queimando livros e móveis. Não há calefação, não há janelas de vidro e faz frio de menos 40 graus.

Cadáveres congelados dos pais nas camas junto aos órfãos, que ainda estão vivos.

Cadáveres dos vizinhos nas ruas com as bochechas cortadas.

Os gatos comendo outros gatos.

O escritor infantil Daniil Harms de origem alemão corre pela cidade, gritando que pronto ele vai junto com os nazistas matar aos soviéticos das metralhadoras. E ele não foi condenado a pena da morte, senão colocado num manicômio (hoje este homem está “canonizado” como um “dissidente”, ele foi um autor talentoso, eu li quase toda sua obra e gostei muito sem saber nada de sua biografia real, ele morreu de fome, mas sua mulher fugiu da URSS com os nazistas e acabou na Venezuela).

A vida está subordinada à guerra, os cidadãos estão classificados e alimentados segundo sua utilidade à Vitória e à sobrevivência do povo soviético. As mães jovens na evacuação trocam o sexo por uma lata: com uma só lata miserável elas podem alimentar suas crianças durante umas semanas.

Surgem o mercado negro, o banditismo, o fraude com os cartões de comida. A sociedade ainda é ex-camponesa, ou seja bastante cruel, se levanta o cinismo, acondicionado pelos resíduos da Guerra Civil (a Guerra Civil se acabou só uns 15 anos atrás!).

A vida humana e a dignidade se mantém exclusivamente graças ao Estado Soviético e ao Partido Comunista (fundamental para a Sociedade Civil daquele tempo) com seus disciplina de ferro e auto-sacrifício. Se organiza a distribuição daquele minimum do comestível que havia, trabalham os hospitais, se mantém a limpeza da cidade, se realiza o enterro dos mortos nas fossas comuns (registrando os sobrenomes). A educação das crianças se continua nos abrigos antiaéreos, até as festas infantis são organizadas! (claro, que ninguém dançava por não ter forças, só aguardavam algo para comer, mas ninguém comia, tudo foi levado à casa para compartilhar com a família). Super importante foi a animação com ajuda da rádio, onde trabalhavam os melhores poetas e músicos… E tudo isso foi secundário, porque em primeiro plano estava a defesa e a causa militar. Se Leningrado fosse cedida, sua população seguramente seria assassinada (os nazistas não planejaram trazer a comida para os russos, que sorpresa!), mas também caeira todo o frente de Murmansk (se perderia a comunicação com os aliados pelo Mar de Barents!), seria liquidada a indústria de Leningrado, a Armada no Báltico, e seguramente caeria Moscou, cuja povoação também seria assassinada pelos nazistas.

Lendo os livros deste tipo os leitores podem se surpreender, como é que os russos não mataram todos os alemães e seus puxa-sacos (quase toda a Europa colaborou com muito prazer e sem resistência relevante)? Isso foi outra proeza da URSS, um dos pontos mais altos na história da civilização.

Visitando São Petersburgo e ouvindo as falácias dos guias locais, que costumam elogiar o tempo do pesadelo dos Romanov, lembrem, por favor, da façanha de Leningrado, dos bombardeios “humanitários” europeus, da fome, do crime sem precedente da lesa humanidade, que cometeram o povo alemão e Europa Fascista. E os EUA também! Os EUA que poderiam salvar a situação, se entrassem na guerra não no final, senão no início (hoje os EUA gostam de capitalizar a memória da guerra, fazendo filmes sobre os judeus na 2GM, mas eles poderiam salvar pelo menos estes judeus – os americanos não fizeram quase nada para isso, sem falar dos interesses estritamente lucrativos que tiveram muitas elites americanas com os nazistas alemães).

Lembrem também, que todo o centro histórico de São Petersburgo é uma restauração soviética de Leningrado.

Um dos monumentos culturais mais belos da Resistência da Cidade de Lenin é o metrônomo de alarme antiaéreo, que pode ser ouvido nas certas ruas até hoje.


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Eslavófilos sobre São Petersburgo

Aleksey Khomyakov foi um poeta e filósofo russo, considerado um dos fundadores do movimento dos eslavófilos*. Dizem, que Aleksey Khomyakov costumava se lembrar muito bem de sua primeira visita de São Petersburgo. Quando crianças ele com seu irmão foram trazidos a primeira vez para a capital dos Romanov, os pequenos moscovitas acharam São Petersburgo uma cidade …ultra pagã! Esfinges, leões, arquitetura columnar da Roma pagã… Os pequenos irmão ficaram tão assustados, que começaram a se preparar para uma morte dos mártires!

*Eslavófilo é um partidário da propagação da cultura ou tradições eslavas, leia mais: http://www.iscsp.ulisboa.pt/~cepp/indexfro1.php3?http://www.iscsp.ulisboa.pt/~cepp/ideologias/eslavofilos.htm


Rússia: muita terra separatista, pouco mar integrista

northeastpassage<em meados do século XVIII> no tempo de paz o transporte de cargas de Arkhangelsk para Londres pelo mar era mais rápido e econômico que de Arcangelsk para Moscou pela terra < O rei da Inglaterra Jaime I valorizou tanto esta região, que em 1612-1613, quando as tropas da Polônia e cossacos tomaram Moscou, ele até analisava a possibilidade da colonização direita de Arkhangelsk (Dunning 1989; Kagarlitski 2003)>. No tempo de guerra as cargas militares eram transportadas de Gibraltar para Balaclava mais rápido que de Moscou para Crimeia <A guerra da Crimeia, Inglaterra/Francia/Turquia vs Rússia>.

No início do século XIX fornecer as cargas para as bases russas no Alasca era 2-4 vezes mais econômico pelos 3 oceanos do que pela Sibéria. Além disso, pelos oceanos era mais seguro. Dessa forma, com a circunavegação de São Petersburgo ou Odessa, o Império Russo abastecia de trigo e azeite a América Russa.

Bering Strait map and new railroads in red frameO transporte de peles do Alasca para a China pela Sibéria demorava 2 anos; os navios americanos transportavam as peles em 5 meses.

Tecnicamente e psicologicamente a Índia estava mais perto de Londres do que muitas províncias do Imperio Russo de São Petersburgo.

Os oceanos conectavam, quando a terra separava.

No mar haviam inimigos e piratas, mas não haviam súbditos. Estes últimos são povos estranhos, descontentes ou rebeldes que precisavam ser pacificados, estudados, trasladados, ilustrados, fiscalizados e recrutados pelo governo, que possuia a responsabilidade sobre eles perante o mundo.

Fragmento de ensaio do culturologo russo Alexandr Etkind.