Feliz dia da Cosmonáutica!

Feliz dia da Cosmonáutica!

A cosmonáutica, sendo uma sublimação da Guerra Fria (Corrida espacial)*, ao início gerou muito otimismo. Não foi apenas o avanço da Modernidade. Foi um grande desafio da cognição do mundo e da autocognição. Sergei Korolev, Wernher von Braun acreditavam nas civilizações extraterrestres, esperando um “contato”. Desde a Lua, as pragas da humanidade, como racismo, nacionalismo, etc., pareciam ridículas, era evidente a tese da convergência dos elementos socialistas e mercantilistas na Terra. Para? Para conhecer o Universo e se aperfeiçoar! O pensamento até se tornava pós-humanista, já que originalmente o cosmismo russo propus a superar a Morte mesmo, sair dos limites do corpo físico humano.

Hoje, a Estação Espacial Internacional continua sendo um dos símbolos da alta cooperação dos terráqueos. Mas. A quem. Interessa? Parece chato!

O efeito dos primeiros passos, que eram muito grandes, desaparece. A cosmonáutica é privatizada, torna-se mesquinha.

“Basta de dar de comer aos cosmonautas! E eles não são cosmonautas nenhuns: voam a 400 quilômetros, é a atmosfera da Terra!” – reclamam os entusiastas, preocupados com o desperdício de recursos (a cosmonáutica pilotável consome ⅓ parte do orçamento cósmico russo todos os anos, enquanto os japoneses, sem estar na EIE, fazem mais descobrimentos com ajuda de seus robôs ou modelos matemáticos) .

A cosmonáutica “frea” e “patinha” devido ao colapso da URSS, que foi arruinada em parte pela Guerra das Estrelas! À medida da desaceleração da cosmonáutica aumentam o racismo, o nacionalismo e outras pragas da humanidade. Mas a cosmonáutica não para.

E hoje nos lembramos de um dos momentos mais altos da história do planeta Terra: do primeiro voo do ser humano ao cosmos.

Feliz dia da cosmonáutica!

* É muito importante lembrar que o Sputnik em 1957, o voo de Y.Gagarin em 1961, etc. não eram meras prioridades da URSS, mas sua resposta assimétrica ao tremendo poder dos Estados Unidos. EUA depois da 2GM se acharam um líder indiscutível com o maior parque dos aviões no mundo. Se discutia somente a data do bombardeio atômico da URSS, cujo espaço aéreo foi sistematicamente violado até 1960, quando a URSS abateu um Lockheed U2 sobre os Urais – graças aos fogetes de seu programa espacial (!). Vostok – o nome, dado à primeira família de foguetes russos – quer dizer em russo “Oriente”: foi um triunfo do Oriente coletivo (Vostok) contra o Ocidente (seja em forma da Alemanha Nazista ou dos EUA).


Vitaly, é costume aqui dar gorjeta a motorista de táxi e Uber?

Uma pesquisa pouco confiável do ano 2016

A pobreza em massa é um fenómeno novo para a Rússia pós-soviética (segundo os dados do governo russo, um 15% dos russos vivem abaixo da linha da pobreza, se nós usarmos o padrão ocidental, esse número será muito maior). Assim, a tradição de gorjetas, que desapareceu depois da Revolução de 1917, desde 1991 está voltando.

Os motoristas de UBER/YANDEX ou os garçons dos restaurantes são as pessoas que estão no fundo da sociedade (em geral são migrantes das repúblicas outrora soviéticas, que depois da queda da URSS, caíram na Idade da Pedra: Quirguistão e Armênia, Uzbequistão e Tadjiquistão, Ucrânia e Moldávia). 

O salário diário dos taxistas nos últimos 7 anos caiu 3 vezes (graças à uberização). Se registram os casos das mortes dos taxistas em “seus” carros por trabalhar demais, como também morrem por trabalhar demais os entreguistas de comida, caindo de “suas” bicicletas. Sua vida é quase um inferno com o objetivo de entrar na classe média baixa.

Mas os usuários de UBER/YANDEX/SAVE-TIME também são as pessoas relativamente pobres, que lutam por não cair da classe média baixa ao submundo do UBER!

Em contrapartida os ricos não usam UBER, ou melhor dizendo, os ricos usam algum Uber Super Lux Plus (ou eles tem seus motoristas privados para não pagar nunca pelo estacionamento). 

A maioria dos russos não comem nos restaurantes onde há garçons, eles comem de vez em quando nos restaurantes de autosserviço, onde nem tecnicamente há jeito de deixar gorjetas.

Acontece então que os usuários de UBER, as pessoas que comem nos restaurantes de mass market ou as pessoas que compram a entrega de produtos QUASE NUNCA DÃO AS GORJETAS.

A situação da gorjeta acontece entre um rico e um pobre, e eles tecnicamente podem se encontrar só num lugar de chique, por exemplo, num restaurante do nível mais ou menos alto: cliente e garçom. 

Segundo uma pesquisa da opinião pública (pouco confiável) um 40% dos russos dizem, que deixam as gorjetas nos restaurantes e bares (mas é importante compreender, que a maioria dos russos não comem nos restaurantes com garçons cada dia, senão 1 vez por ano ou por vida). Só um 12% dos russos dão gorjetas aos taxistas (quando o uso de táxis é muito mais frequente e rutinario que comer num restaurante com garçons!).

Os líderes da opinião pública (que representam os ricos) nos aconselham a dar as gorjetas. Mas pela lei ainda não é obrigatório na Rússia.

No setor turístico também as gorjetas se tornam comuns. Alguns de meus motoristas até colocam em seus carros os cartéis: “tips are welcome”. Certos restaurantes já incluem as gorjetas na conta (incluem, porque os clientes não querem dar as gorjetas voluntariamente). Cotando os pacotes turísticos eu nunca espero as gorjetas, nem as incluo, mas a maioria de meus clientes ficam felizes com meu trabalho e deixam as gorjetas, claro que isso soube muito minha autoestima e isso é uma boa inversão de seu dinheiro.

Resumindo, entre os russos a gorjeta ainda não é comum. A última moda é oposta – procurar os cashbacks (programas de recompensa por pagar com certos cartões). Mas no setor turístico as gorjetas são bem-vindas (também pela lógica da desvalorização da Rússia: a Rússia se tornou um dos destinos mais económicos, vale a pena agradecer aos russos).

P.S.

Pode ser curioso que é quase uma tradição aqui de agradecer aos médicos ou aos professores do setor público com os pequenos presentes (tradição se formou no tempo de déficit ao final da Perestroika e avançou no tempo do fome dos anos do capitalismo selvagem). Os presentes podem ser pessoais ou coletivos. Com os coletivos há problemas: os filhos dos pais, que não podem ou não querem pagar tal dinheiro à escola, por exemplo, correm risco de bullying. Porque outros pais pagam – pela pressão da escola ou pela pressão de alguns pais ativistas idiotas. E o dinheiro não sempre vai para o professor ou para as reformas de aulas, este dinheiro facilmente pode ser roubado pelo diretor ou pelo chefe do comité dos pais. Nestes casos as gorjetas direitas seriam mais honestas, e muitos russos preferem presentear algo simbólico (com frequência já em forma de dinheiro), mas diretamente para o professor ou o médico.


Top 5 dos santos ortodoxos

O Centro Pan-Russo da Pesquisa de Opinião Pública (em russo WCIOM) fez um estudo sobre os santos dos russos ortodoxos:

Quantos santos ortodoxos você conhece?

Você pode nomear até 5 dos santos mais conhecidos?

E foi formado o seguinte “ranking”:

  1. São Nikolai, o Milagroso (48%)
  2. Matrona de Moscou (39%)
  3. Serafim de Sarov (18%)
  4. Mãe de Deus / Virgem Maria (14%)
  5. Sergio de Radonezh (11%)
  6. Jesus Cristo (10%)
  7. etc.

Para os russos este “ranking” é bastante natural. 

São Nikolai é nosso Papai Noel, também chamado no período do Ano Novo de Vovô Frio ou Vovô Gelo. Ele era considerado na época do Império dos Romanov um “Deus dos muzhiks (camponeses de gleba)”, produto do sincretismo entre a religião ortodoxa e as crenças pagãs. Segundo uma lenda popular, ele até deveria virar o Deus, mas recusou.

Santa Matrona, iluminando a Stalin

Matrona de Moscou é uma santa quase contemporânea (morreu em 1952), sua imagem popularmente está associada com Stalin: segundo um apócrifo popular, ela teve um encontro com Stalin durante a Batalha de Moscou e sugeriu ao comandante em chefe sobrevoar Moscou 7 vezes com o ícone de Nossa Senhora do Rio Don, e assim os russos ganharam a guerra contra toda a Europa Fascista. Muito fácil, né? Ao mesmo tempo, é certo que na véspera da 2GM o governo soviético prestou muita atenção à Igreja (separada do Estado depois da Revolução) e até começou a financiá-la para mobilizar toda a sociedade russa, incluindo a direita e a parte obscurantista da povoação.

Serafim de Sarov

Serafim de Sarov tem sido muito promovido ultimamente pelo oficialismo com ajuda da ideia de que ele possa ter inspirado o projeto atômico na URSS. Além disso, ele foi canonizado por Nikolai II e tem a ver com o mito “daquela Rússia que tínhamos perdido”. O santo atuava na área, onde mais tarde ficou uma cidade fechada dos cientistas e militares soviéticos feita para desenhar a bomba atômica. É lógico que este santo atualmente ganha a popularidade mediante apoio das Forças Armadas e da Agência de Energia Nuclear. Ambas instituições ainda não são privatizadas e continuam sendo os elementos mais modernos da Rússia. Serafim de Sarov se tornou a capa da ideologia da “ortodoxia atômica”.

Apesar da proibição de qualquer ideologia na Rússia pela Constituição pós-soviética, a Igreja Ortodoxa Russa e as demais fés tradicionais (Islã e Budismo) de fato têm todo o apoio do Governo para preencher o vazio ideológico com a ecléctica direitista. Mas vemos como Matrona de Moscou e Serafim de Sarov estão trazendo de contrabando o pacote soviético à consciência dos russos: o culto de Stalin (Estado forte e igualitário) e das altas tecnologias.

O perigo é que se tirarmos do “Stalin” os elementos pró-sociais, ficaremos com um “Pinochet”. E se deixarmos as altas tecnologias só com os ícones e as velas, receberemos “Cargo Cult”¨: os foguetes com motores a vapor de água benta.

Também pode parecer estranho que Jesus Cristo não esteja no Top 5 do ranking. Já Dostoiévski começou a questionar o lugar de Cristo nas igrejas oficiais (Lenda do Grande Inquisidor). Mas isso tem uma gênese mais profunda: nas igrejas ortodoxas russas o tema da Paixão de Cristo foi acentuado pela influência ocidental e só ao final do século XVII (quando a fila com estes ícones foi colocada no top do icionstacio, coroado desde aquel então com crucifixão). Também pode ser porque a natureza humana de Jesus não foi levada a sério pelo pensamento religioso na Rússia (apesar do conservadorismo ortodoxo, que acha que o Espírito Santo parte só do Deus Pai e não do Deus Filho). Por consecuencia, Jesus não é visto como um homem, senão como um Deus ou um avatar de Deus. Por isso, os inquiridos pensando em santos, não pensam em Jesus, que para eles é mais do conceito da Trindade e está acima de todos os santos.

É curiosa também a opinião popular sobre Jesus ouvida pelo escritor Mikhail Príshvin durante a Guerra Civil russa do início do século XX:

– Ele foi solteiro, sem filhos e não trabalhou, não é um exemplo para gente, nossa vida passa mais nos dias úteis, quando Ele tinha só festas. Seu caminho de salvação é impossível para gente.

– E vivem sem ser salvados?

– Grande maioria da gente não precisa disso: se dá pão – diremos: Graças a Deus! Não dá pão – há de aguentar. E vocês /os intelectuais/ não podem aguentar, se lhes tocou a dificuldade – vocês em seguida ligam para Cristo: isso é sua debilidade e o engano de orgulho, porque vocês não querem trabalhar, só querem andar, ensinar, sonhar…

Deve ser que por isso para um muzhik russo sejam mais importantes os milagros do Vovô Frio (São Nikolai, o Milagroso), que a filosofia de Jesus, revolucionária no fundo, mas escurecida pelos séculos da corrupção da Igreja.

Leia mas:

Ecléctica do putinismo na religião

Irgeja Ortodoxa Russa no Exterior

O povo russo é um povo porta-Deus?

Igreja Ortodoxa Russa vs Revolução


“Escola da vida. Memórias das crianças do cerco de Leningrado”

Meu exemplar do livro tem uma queimadura no bloco das páginas, onde as tocamos com os dedos para folhear. Pensei que este livro foi desenhado de tal jeito a propósito, mas não, o livro realmente sofreu uma queimadura. Encontrei este livro num bookcrossing.

Há muitas memórias da Grande Guerra Patriótica. “A guerra não tem rosto de mulher”, uma coleção das entrevistas das mulheres (este livro de S.Alexievich foi escrito antes da degradação intelectual da autora). Há memórias das crianças da Bielorrússia, onde havia campos de concentração para as crianças – os nazistas lhes tiravam o sangue para fazer transfusões a seus soldados.

Então agora acabo de ler as memórias das crianças, que viveram o cerco a Leningrado.

Apagão total.

Comida baseada na cola de madeira estava uma delícia. Igual ao “сafé da terra”, ou seja da terra encharcada com algo de açúcar e cinzas, resultado do bombardeio consciente dos nazistas dos Armazéns Badáievskie. 

Não funcionam aquedutos, nem tubulações para os esgotos. Dejetos humanos estão nos patamares de escadas, nas ruas.

Os fogões improvisados são usados só para aquecer a “comida”, queimando livros e móveis. Não há calefação, não há janelas de vidro e faz frio de menos 40 graus.

Cadáveres congelados dos pais nas camas junto aos órfãos, que ainda estão vivos.

Cadáveres dos vizinhos nas ruas com as bochechas cortadas.

Os gatos comendo outros gatos.

O escritor infantil Daniil Harms de origem alemão corre pela cidade, gritando que pronto ele vai junto com os nazistas matar aos soviéticos das metralhadoras. E ele não foi condenado a pena da morte, senão colocado num manicômio (hoje este homem está “canonizado” como um “dissidente”, ele foi um autor talentoso, eu li quase toda sua obra e gostei muito sem saber nada de sua biografia real, ele morreu de fome, mas sua mulher fugiu da URSS com os nazistas e acabou na Venezuela).

A vida está subordinada à guerra, os cidadãos estão classificados e alimentados segundo sua utilidade à Vitória e à sobrevivência do povo soviético. As mães jovens na evacuação trocam o sexo por uma lata: com uma só lata miserável elas podem alimentar suas crianças durante umas semanas.

Surgem o mercado negro, o banditismo, o fraude com os cartões de comida. A sociedade ainda é ex-camponesa, ou seja bastante cruel, se levanta o cinismo, acondicionado pelos resíduos da Guerra Civil (a Guerra Civil se acabou só uns 15 anos atrás!).

A vida humana e a dignidade se mantém exclusivamente graças ao Estado Soviético e ao Partido Comunista (fundamental para a Sociedade Civil daquele tempo) com seus disciplina de ferro e auto-sacrifício. Se organiza a distribuição daquele minimum do comestível que havia, trabalham os hospitais, se mantém a limpeza da cidade, se realiza o enterro dos mortos nas fossas comuns (registrando os sobrenomes). A educação das crianças se continua nos abrigos antiaéreos, até as festas infantis são organizadas! (claro, que ninguém dançava por não ter forças, só aguardavam algo para comer, mas ninguém comia, tudo foi levado à casa para compartilhar com a família). Super importante foi a animação com ajuda da rádio, onde trabalhavam os melhores poetas e músicos… E tudo isso foi secundário, porque em primeiro plano estava a defesa e a causa militar. Se Leningrado fosse cedida, sua população seguramente seria assassinada (os nazistas não planejaram trazer a comida para os russos, que sorpresa!), mas também caeira todo o frente de Murmansk (se perderia a comunicação com os aliados pelo Mar de Barents!), seria liquidada a indústria de Leningrado, a Armada no Báltico, e seguramente caeria Moscou, cuja povoação também seria assassinada pelos nazistas.

Lendo os livros deste tipo os leitores podem se surpreender, como é que os russos não mataram todos os alemães e seus puxa-sacos (quase toda a Europa colaborou com muito prazer e sem resistência relevante)? Isso foi outra proeza da URSS, um dos pontos mais altos na história da civilização.

Visitando São Petersburgo e ouvindo as falácias dos guias locais, que costumam elogiar o tempo do pesadelo dos Romanov, lembrem, por favor, da façanha de Leningrado, dos bombardeios “humanitários” europeus, da fome, do crime sem precedente da lesa humanidade, que cometeram o povo alemão e Europa Fascista. E os EUA também! Os EUA que poderiam salvar a situação, se entrassem na guerra não no final, senão no início (hoje os EUA gostam de capitalizar a memória da guerra, fazendo filmes sobre os judeus na 2GM, mas eles poderiam salvar pelo menos estes judeus – os americanos não fizeram quase nada para isso, sem falar dos interesses estritamente lucrativos que tiveram muitas elites americanas com os nazistas alemães).

Lembrem também, que todo o centro histórico de São Petersburgo é uma restauração soviética de Leningrado.

Um dos monumentos culturais mais belos da Resistência da Cidade de Lenin é o metrônomo de alarme antiaéreo, que pode ser ouvido nas certas ruas até hoje.