Latinização do espaço pós-soviético

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Latinização do espaço pós-soviético

24 de Maio, festa da escritura cirílica na Rússia

A Rússia, desideologizada e desindustrializada pelas reformas de Yéltsin e Putin está se tornando cada vez menos atrativa para seus vizinhos. O Cazaquistão, segundo seu presidente vitalício, Nursultan Nazarbayev, deve deixar até o ano de 2025 o uso do abecedário cirílico e mudá-lo completamente pelo latino. As elites do Quirguistão apoiam a decisão do Cazaquistão e também planejam para os anos 2030-2040 latinizar sua grafia.

Falamos de dois países aliados da Rússia, que formam juntos a União Económica Euroasiática e, além disso, nós temos uma aliança militar segundo o Tratado da Segurança Coletiva, ratificado em Tashkent em 2002.

Outro país vizinho da Ásia, o Uzbequistão, já está latinizado desde o ano 1993. O Azerbaijão também desde o ano 1993. O Turcmenistão desde o ano 1996. O Uzbequistão e o Quirguistão já foram antes os anfitriões das bases militares dos EUA. Economicamente, a região é cada vez mais dependente da China, do Irã e da Turquia.

embaixadores do Ocidente, aguardando a latinização da Rússia (foto tomada na embaixada dos EUA ontem)

Obviamente recusando o abecedário cirílico as ex repúblicas da União Soviética recusam a língua russa e insinuam aos russos que moram nesses países “go home”. Tal decisão das elites oficialmente sempre é motivada pelo desafio da modernização. Ou seja, a Rússia pós-soviética já não é vista pelas elites dos povos mais amigáveis como um país modelo a seguir. Em sério, que tecnologias, sejam industriais, econômicas e humanitárias pode exportar de fato a Rússia atual? Segundo o acadêmico russo e reitor do Instituto da Ciência e Tecnologias Skólkovo, Alexandr Kuleshov a brilhante escola soviética hoje ficou absolutamente destruída: “A Rússia está de novo na situação do ano 1929. Ainda temos a Ciência, mas não temos mais a engenharia. De novo precisamos de contratar estrangeiros para ensinar nossos especialistas que vão ensinar as massas”. [1.] Então se a propria Rússia reconhece seu atraso catastrófico, porque os vizinhos tem que esperar quando seu irmão mais velho aprenda?

A pior notícia é que a ruptura linguística com a Rússia só finaliza o processo da separação quase total. Vamos ver como foram ligados os países na URSS:

  • Pelo complexo industrial. Mas hoje este complexo está quase destruído pela economia de mercado. Os povos irmãos, que antes cooperavam, hoje são concorrentes nos mercados mais primitivos, tais como de petróleo, gás, metais, etc.
  • Os povos da URSS foram ligados pelo complexo energético, que hoje é um tema de intermináveis disputas, brigas e guerras sobre o preço de gás ou petróleo.
  • O sistema das vias férreas une unos aos otros, mas essas vias são substituídas cada vez mais pelo transporte rodoviário (graças a tarificação absurda das vias férreas).
  • A unidade cultural é destruída pelos nacionalismos [2]. Mimados pelas elites, os nacionalismos só fazem os povos sentirem as suas diferenças e procuraram as causas para não sofrer do complexo de inferioridade. Os nacionalismos terceiro-mundistas ativaram os processos da ocidentalização e orientalização. Se a Ucrânia se poloniza (sonha em repetir o “êxito” da Polônia), a Bielorrússia se lituaniza (vive a influência da Lituânia), o Cazaquistão, o Quirguistão, o Uzbequistão, o Turcmenistão e o Azerbaijão se aturquizam (se relacionam cada vez mais com a Turquia), quando o Tadjiquistão se apersianiza pela proximidade com o Irã. Geopolitica e geoeconomicamente a região da Asia Central é cada vez mais subordinada a China (mediante a Organização para Cooperação de Xangai).

E a Rússia? Hoje quando os filhos das elites russas em massa moram em Inglaterra, os EUA, etc. É possível que a Rússia mesma opte por latino?

O tempo quando os milhões dos estudantes estranjeiros aprendiam russo e cirílico para importar as tecnologias soviéticas para América Latina, Asia, África, Europa do Leste parece um sonho.

  1. https://www.znak.com/2016-06-28/glava_skolteha_otkrovenno_rasskazal_o_katastrofe_v_rossiyskom_inzhenernom_obrazovanii
  2. os monmentos à Vitória da URSS na 2GM e os monumentos à amizade dos povos são destruidos tanto nos países bálticos, Ucrânia e Georgia, como em Uzbequistão e Quirquistão.

Leia mais:

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http://guiademoscou.blogspot.ru/2016/01/por-que-putin-tem-medo-de-lenin.html

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