Top 5 dos santos ortodoxos

Top 5 dos santos ortodoxos

O Centro Pan-Russo da Pesquisa de Opinião Pública (em russo WCIOM) fez um estudo sobre os santos dos russos ortodoxos:

Quantos santos ortodoxos você conhece?

Você pode nomear até 5 dos santos mais conhecidos?

E foi formado o seguinte “ranking”:

  1. São Nikolai, o Milagroso (48%)
  2. Matrona de Moscou (39%)
  3. Serafim de Sarov (18%)
  4. Mãe de Deus / Virgem Maria (14%)
  5. Sergio de Radonezh (11%)
  6. Jesus Cristo (10%)
  7. etc.

Para os russos este “ranking” é bastante natural. 

São Nikolai é nosso Papai Noel, também chamado no período do Ano Novo de Vovô Frio ou Vovô Gelo. Ele era considerado na época do Império dos Romanov um “Deus dos muzhiks (camponeses de gleba)”, produto do sincretismo entre a religião ortodoxa e as crenças pagãs. Segundo uma lenda popular, ele até deveria virar o Deus, mas recusou.

Santa Matrona, iluminando a Stalin

Matrona de Moscou é uma santa quase contemporânea (morreu em 1952), sua imagem popularmente está associada com Stalin: segundo um apócrifo popular, ela teve um encontro com Stalin durante a Batalha de Moscou e sugeriu ao comandante em chefe sobrevoar Moscou 7 vezes com o ícone de Nossa Senhora do Rio Don, e assim os russos ganharam a guerra contra toda a Europa Fascista. Muito fácil, né? Ao mesmo tempo, é certo que na véspera da 2GM o governo soviético prestou muita atenção à Igreja (separada do Estado depois da Revolução) e até começou a financiá-la para mobilizar toda a sociedade russa, incluindo a direita e a parte obscurantista da povoação.

Serafim de Sarov

Serafim de Sarov tem sido muito promovido ultimamente pelo oficialismo com ajuda da ideia de que ele possa ter inspirado o projeto atômico na URSS. Além disso, ele foi canonizado por Nikolai II e tem a ver com o mito “daquela Rússia que tínhamos perdido”. O santo atuava na área, onde mais tarde ficou uma cidade fechada dos cientistas e militares soviéticos feita para desenhar a bomba atômica. É lógico que este santo atualmente ganha a popularidade mediante apoio das Forças Armadas e da Agência de Energia Nuclear. Ambas instituições ainda não são privatizadas e continuam sendo os elementos mais modernos da Rússia. Serafim de Sarov se tornou a capa da ideologia da “ortodoxia atômica”.

Apesar da proibição de qualquer ideologia na Rússia pela Constituição pós-soviética, a Igreja Ortodoxa Russa e as demais fés tradicionais (Islã e Budismo) de fato têm todo o apoio do Governo para preencher o vazio ideológico com a ecléctica direitista. Mas vemos como Matrona de Moscou e Serafim de Sarov estão trazendo de contrabando o pacote soviético à consciência dos russos: o culto de Stalin (Estado forte e igualitário) e das altas tecnologias.

O perigo é que se tirarmos do “Stalin” os elementos pró-sociais, ficaremos com um “Pinochet”. E se deixarmos as altas tecnologias só com os ícones e as velas, receberemos “Cargo Cult”¨: os foguetes com motores a vapor de água benta.

Também pode parecer estranho que Jesus Cristo não esteja no Top 5 do ranking. Já Dostoiévski começou a questionar o lugar de Cristo nas igrejas oficiais (Lenda do Grande Inquisidor). Mas isso tem uma gênese mais profunda: nas igrejas ortodoxas russas o tema da Paixão de Cristo foi acentuado pela influência ocidental e só ao final do século XVII (quando a fila com estes ícones foi colocada no top do icionstacio, coroado desde aquel então com crucifixão). Também pode ser porque a natureza humana de Jesus não foi levada a sério pelo pensamento religioso na Rússia (apesar do conservadorismo ortodoxo, que acha que o Espírito Santo parte só do Deus Pai e não do Deus Filho). Por consecuencia, Jesus não é visto como um homem, senão como um Deus ou um avatar de Deus. Por isso, os inquiridos pensando em santos, não pensam em Jesus, que para eles é mais do conceito da Trindade e está acima de todos os santos.

É curiosa também a opinião popular sobre Jesus ouvida pelo escritor Mikhail Príshvin durante a Guerra Civil russa do início do século XX:

– Ele foi solteiro, sem filhos e não trabalhou, não é um exemplo para gente, nossa vida passa mais nos dias úteis, quando Ele tinha só festas. Seu caminho de salvação é impossível para gente.

– E vivem sem ser salvados?

– Grande maioria da gente não precisa disso: se dá pão – diremos: Graças a Deus! Não dá pão – há de aguentar. E vocês /os intelectuais/ não podem aguentar, se lhes tocou a dificuldade – vocês em seguida ligam para Cristo: isso é sua debilidade e o engano de orgulho, porque vocês não querem trabalhar, só querem andar, ensinar, sonhar…

Deve ser que por isso para um muzhik russo sejam mais importantes os milagros do Vovô Frio (São Nikolai, o Milagroso), que a filosofia de Jesus, revolucionária no fundo, mas escurecida pelos séculos da corrupção da Igreja.

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