Stalin e Bulgakov, dois mestres

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Stalin e Bulgakov, dois mestres

As relações de Stalin com os intelectuais é um tema interminável. Em geral se fala das ligações telefônicas, correspondências e encontros com os escritores e poetas (Stalin mesmo escrevia versos, quando era jovem). Mas o tema é mais amplo e inclui também os engenheiros, militares, cientistas. Ontem, falando com o amigo Rodrigo Peñaloza, tocamos o caso de Mikhail Bulgakov, um escritor satírico, que expressava o ressentimento dos ex, dos perdedores da guerra civil russa.

M.Bulgakov se tornou uma “estrela no céu” da Rússia nos anos 1990 graças ao filme soviético “Coração de Cão” (1988) com base de uma obra bastante débil dele, queremos dizer, que o filme soviético resultou mil vezes mais talentoso do que o conto original. É certo que o conteúdo e a mensagem da obra eram totalmente anti soviéticos (para não dizer extremistas). Foi plena Perestroika. Mas na Rússia atual seria impossível produzir um filme de tal qualidade (mesmo que o filme fosse soviético só no sentido da qualidade). E depois, à medida que a Rússia pós-soviética degradou, M.Bulgakov ficou desatualizado, não é uma “estrela no céu” nenhuma hoje na Rússia. Mas por certa inércia da propaganda o M.Bulgakov ainda continua sendo uma estrela russa no Ocidente e nas periferias ocidentais, como um satírico antisoviético em geral e anticomunista em particular.

Stalin e a “Guarda Branca”

Bulgakov, um escritor autônomo da URSS

Antes de tudo, queremos salientar, que I.Stalin foi criticado sempre por distanciar-se do esquerdismo revolucionário (“Termidor”, “Revolução Traída”, etc. – por Trotsky, por Khrushchev, por Gorbachev), isso se encaixa perfeitamente com o problema de Mikhail Bulgakov. No tempo de Stalin a URSS recusa do hino do Terceiro Internacional, retorna ao exército as ombreiras militares, tão odiosas para os vermelhos durante a guerra civil, muda a interpretação radical marxista da história russa do historiador brilhante M.Pokrovskiy (sugerimos assistir os filmes de S.Eisenstein “Alexandre Nevski”, “Ivã, o Terrível”, etc.), para cúmulo do stalinismo no metrô de Moscou aparecem as imagens de Cristo!

Foi lógico que Stalin também assistisse pessoalmente muitas vezes a obra de Bulgakov os “Dias dos Turbin” (com base do livro “A Guarda Branca”). “A Guarda Branca” não foi escrita para elogiar os brancos, mas para mostrar a gente perdida, desnorteada. Por certo, no estrangeiro neste tempo a comunidade russa rachou: se uns emigrantes se tornaram pró-nazistas, outros desenvolveram o pacote das ideias nacional-bolcheviques e eurasianas (pró-soviéticas).

Em nosso filme “Escravos: negros no Brasil, brancos na Rússia” falamos, que a Constituição de Stalin anulou a discriminação dos “ex” (ex-nobres, ex-ricos) do tempo de Lenin. 

Ao nível internacional Stalin sempre confirmava a continuação entre o Império Russo e a URSS (quanto aos territórios perdidos pelo colapso do Império). 

Foi um tempo da sínteses depois da revolução, certa “reação tradicionalista”.

Paradoxalmente na URSS da metade dos anos 1930 censuravam-se os autores e historiadores esquerdistas – por desprezar a história russa e a religião ortodoxa! Beleza?!

Então os autores comunistas censurados! E quanto aos “Dias dos Turbin” de Bulgakov, pelo contrário, a peça censurada em 1927 (pelo comissariado da cultura de A.Lunacharsky), foi lançada pela decisão do Politburo! Antes do mesmo jeito tinha sido lançada outra peça – o “Apartamento de Zoika” (Stalin também não achou nada antissoviético nela).

Stalin como um advogado de Bulgakov

Isso foi chocante para os autores abastados da turma de Mayakovsky, para a “nobreza do partido”. Em 1927 Bulgakov terminou sua peça “A fuga” (filmada na URSS em 1970). E havia muitas denúncias contra Bulgakov pelo motivo de este novo produto teatral (atenção: o cinema ainda não era desenvolvido, e o teatro com literatura eram literalmente um grande negócio, equiparável a Hollywood de hoje). Stalin respondia estas denúncias da esquerda contra Bulgakov, pedindo desideologizar a arte e introduzir os critérios novos, por exemplo: “soviético ou antisoviético” (carta para Bill-Belotserkovsky), Stalin diretamente advogava por Bulgakov e sua nova peça “A fuga”, defendendo a peça e oferecendo uma redação do compromisso. Protegendo o Bulgakov, Stalin sugeria à asa esquerda produzir algo concorrente!

Stalin no Teatro Bolshoi

Mas “A fuga” não foi lançada, porque heroizar tanto os brancos, apenas 10 anos depois da guerra civil, foi bizarro (mesmo que o protótipo do protagonista chave – o general Yakov Slashchov fosse um branco amnistiado, quem voltou à Rússia Soviética e se tornou um instrutor do Exército Vermelho, igual a A.Brussilov e muitos outros heróis da IGM). 

Tudo indica, que a censura não vinha da parte de Stalin e pelo contrário Stalin simpatizava ao Bulgakov (há outros exemplos de sua proteção: durante a discussão com os escritores ucranianos na presencia de Kaganovich Stalin voltou a repetir, que não se deveria insistir, que os intelectuais fossem comunistas).

Bulgakov com sua terceira mulher

Bulgakov tinha outros advogados poderosos da equipe de Stalin. Mas os grupos dos escritores proletários continuavam o xingamento do escritor. Nesta situação Bulgakov escreveu a carta famosa para Stalin, pedindo emprego. Stalin deu uma directriz para isso. E Bulgakov sempre tinha emprego (diretor-assistente, intérprete, libretista, ator, etc.). Bulgakov comreendia a mudança do rumo ideolôgico: em 1936 foi censurada a peça do poeta-bolchevique Demian Bedny, quem se burlava do batismo da Rússia (coisa absolutamente normal até 1936!). Bulgakov em seguida começou a escrever uma peça sobre o principe Vladímir-Batista (não terminada). E mesmo que ele fosse censurado, Bulgakov tranquilamente sobreviveu os anos terríveis para os intelectuais frondistas do purgamento pré-guerra: 1937, 1938 (sic!). Em 1939 Bulgakov até escreveu uma peça sobre Stalin mesmo – “Batum” e já se preparava sua encenação! Grosso modo, os romances “Mestre e Margarita” (1940, publicado na URSS em 1960), “Molière” (1936, a peça foi censurada depois da estreia) também são obras sobre Stalin, mas a “Batum” de 1939 foi um intento já bastante exagerado de bajular o “Pai dos Povos”. Stalin não gostou de esta quebra moral de Bulgakov e deixou de responder as cartas dele (cada vez mais desequilibradas). Stalin lavou as mãos, como Pilatos. Estava cada vez mais ativa a dinâmica da IIGM, e Bulgakov não era nada atual para a agenda da URSS, além disso apareceram os escritores concorrentes (o futuro prêmio Nobel Mikhail Sholokhov, entre eles). Com isso queremos adicionar, que o nível de Bulgakov é questionavel até hoje por muitos literários TOP da Rússia dos campos asbsolutamente diferentes (Eduard Limonov e Dmitriy Bykov, por exemplo).

Bulgakov no final de sua vida

A morte do Mestre

Bulgakov morreu em 1940. Como ele se achava (por si mesmo) muito “perseguido”, isso ficou refletido em seus textos às vezes talentosos e quase sempre tóxicos, e evidentemente isso foi um presente para a propaganda anti soviética dos anos da queda da URSS. Objetivamente este mito da persecução (ou até da persecução pessoal pelo Stalin) não tem a ver nada com a realidade. Como se Stalin não tivesse outros assuntos no final dos anos 1930. A vida de Bulgakov não foi tão trágica como a dos outros escritores e poetas. Sendo drogadicta, cabeza quente, muito conflictivo, Bulgakov não era angel nenhum nas relações com a sociedade e tinha muitos enemigos. O mesmo exemplo de B.Pasternak mostra, que havia roteiros alternativos e também autônomos.

Não é simplesmente ridículo reduzir todo o Bulgakov à persecução imaginária de Stalin, mas é um insulto contra a memória do escritor. Bulgakov, igual ao Pasternak ou Mandelstam, foi magnificado pela figura de Stalin. Stalin, o poder, é o tema principal de seu analise literario e de sua obra chave “Mestre e Margarita”. 

Bulgakov não era tão arrivista e imprudente como Osip Mandelstam (Mandelstam entrou na nomenklatura dos autores melhor pagos e caiu vítima da luta entre as elites), mas sim Bulgakov era valorizado pessoalmente por Stalin. Quanto à pobreza relativa de Bulgakov, sem falar da situação econômica no país dos anos pré-guerra, achamos, que vale lembrar do caminho dos gênios em qualquer tempo: a lista dos autores famosos, que acabaram na pobreza no Ocidente é interminavel e não tem a ver nada com Stalin).

Também é compreensível, que o regime actual da Rússia precise dos “mártires” para legitimar a decadência e o saqueio dos anos 1990-2000. Mas M.Bulgakov, B.Pasternak, até A.Platonov não estão entre os mártires do jeito nenhum. E até os quase mártires, como O.Mandelstam também não eram simplistas na sua relação ao projeto soviético. 

Nós não retiramos o Bulgakov da “constelação das estrelas” da literatura russa. Só dizemos, que sua estrela duvidosa deixou de dar luz na Rússia há muitos anos, também explicamos as razões ideológicas da conjuntura de esta “luz”. Sim, foi investido muito dinheiro na imagem de Bulgakov (filmes medíocres pós-soviéticos, traduções com os comentários ideologizados e falsificados). A propaganda chega ao Brasil devagar (é possível que O.Mandelstam e A.Platonov nunca cheguem, porque são mais sofisticados, até na Rússia pouca gente lê-los, mesmo que A.Platonov seja mil vezes mais forte do que qualquer Bulgakov).

P.S.

Pessoalmente eu, o autor deste ensaio, me sinto muito semelhante com Mikhail Bulgakov, acho que somos quase duas almas irmãs por causa das viradas históricas, que vivimos os dois, eu acho que compreendo muito bem seu patrimônio dos panfletos e seu espírito cínico e inadaptavel, e claro que sempre lhes ofereço os tours pela literatura russa, a ideia de este texto foi salvar a imagem de Bulgakov da simplificação idiota dos últimos 30 anos: