Stalin e Bulgakov, dois mestres

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Stalin e Bulgakov, dois mestres

As relações de Stalin com os intelectuais é um tema interminável. Em geral se fala das ligações telefônicas, correspondências e encontros com os escritores e poetas (Stalin mesmo escrevia versos, quando era jovem). Mas o tema é mais amplo e inclui também os engenheiros, militares, cientistas. Ontem, falando com o amigo Rodrigo Peñaloza, tocamos o caso de Mikhail Bulgakov, um escritor satírico, que expressava o ressentimento dos ex, dos perdedores da guerra civil russa.

M.Bulgakov se tornou uma “estrela no céu” da Rússia nos anos 1990 graças ao filme soviético “Coração de Cão” (1988) com base de uma obra bastante débil dele, queremos dizer, que o filme soviético resultou mil vezes mais talentoso do que o conto original. É certo que o conteúdo e a mensagem da obra eram totalmente anti soviéticos (para não dizer extremistas). Foi plena Perestroika. Mas na Rússia atual seria impossível produzir um filme de tal qualidade (mesmo que o filme fosse soviético só no sentido da qualidade). E depois, à medida que a Rússia pós-soviética degradou, M.Bulgakov ficou desatualizado, não é uma “estrela no céu” nenhuma hoje na Rússia. Mas por certa inércia da propaganda o M.Bulgakov ainda continua sendo uma estrela russa no Ocidente e nas periferias ocidentais, como um satírico antisoviético em geral e anticomunista em particular.

Stalin e a “Guarda Branca”

Bulgakov, um escritor autônomo da URSS

Antes de tudo, queremos salientar, que I.Stalin foi criticado sempre por distanciar-se do esquerdismo revolucionário (“Termidor”, “Revolução Traída”, etc. – por Trotsky, por Khrushchev, por Gorbachev), isso se encaixa perfeitamente com o problema de Mikhail Bulgakov. No tempo de Stalin a URSS recusa do hino do Terceiro Internacional, retorna ao exército as ombreiras militares, tão odiosas para os vermelhos durante a guerra civil, muda a interpretação radical marxista da história russa do historiador brilhante M.Pokrovskiy (sugerimos assistir os filmes de S.Eisenstein “Alexandre Nevski”, “Ivã, o Terrível”, etc.), para cúmulo do stalinismo no metrô de Moscou aparecem as imagens de Cristo!

Foi lógico que Stalin também assistisse pessoalmente muitas vezes a obra de Bulgakov os “Dias dos Turbin” (com base do livro “A Guarda Branca”). “A Guarda Branca” não foi escrita para elogiar os brancos, mas para mostrar a gente perdida, desnorteada. Por certo, no estrangeiro neste tempo a comunidade russa rachou: se uns emigrantes se tornaram pró-nazistas, outros desenvolveram o pacote das ideias nacional-bolcheviques e eurasianas (pró-soviéticas).

Em nosso filme “Escravos: negros no Brasil, brancos na Rússia” falamos, que a Constituição de Stalin anulou a discriminação dos “ex” (ex-nobres, ex-ricos) do tempo de Lenin. 

Ao nível internacional Stalin sempre confirmava a continuação entre o Império Russo e a URSS (quanto aos territórios perdidos pelo colapso do Império). 

Foi um tempo da sínteses depois da revolução, certa “reação tradicionalista”.

Paradoxalmente na URSS da metade dos anos 1930 censuravam-se os autores e historiadores esquerdistas – por desprezar a história russa e a religião ortodoxa! Beleza?!

Então os autores comunistas censurados! E quanto aos “Dias dos Turbin” de Bulgakov, pelo contrário, a peça censurada em 1927 (pelo comissariado da cultura de A.Lunacharsky), foi lançada pela decisão do Politburo! Antes do mesmo jeito tinha sido lançada outra peça – o “Apartamento de Zoika” (Stalin também não achou nada antissoviético nela).

Stalin como um advogado de Bulgakov

Isso foi chocante para os autores abastados da turma de Mayakovsky, para a “nobreza do partido”. Em 1927 Bulgakov terminou sua peça “A fuga” (filmada na URSS em 1970). E havia muitas denúncias contra Bulgakov pelo motivo de este novo produto teatral (atenção: o cinema ainda não era desenvolvido, e o teatro com literatura eram literalmente um grande negócio, equiparável a Hollywood de hoje). Stalin respondia estas denúncias da esquerda contra Bulgakov, pedindo desideologizar a arte e introduzir os critérios novos, por exemplo: “soviético ou antisoviético” (carta para Bill-Belotserkovsky), Stalin diretamente advogava por Bulgakov e sua nova peça “A fuga”, defendendo a peça e oferecendo uma redação do compromisso. Protegendo o Bulgakov, Stalin sugeria à asa esquerda produzir algo concorrente!

Stalin no Teatro Bolshoi

Mas “A fuga” não foi lançada, porque heroizar tanto os brancos, apenas 10 anos depois da guerra civil, foi bizarro (mesmo que o protótipo do protagonista chave – o general Yakov Slashchov fosse um branco amnistiado, quem voltou à Rússia Soviética e se tornou um instrutor do Exército Vermelho, igual a A.Brussilov e muitos outros heróis da IGM). 

Tudo indica, que a censura não vinha da parte de Stalin e pelo contrário Stalin simpatizava ao Bulgakov (há outros exemplos de sua proteção: durante a discussão com os escritores ucranianos na presencia de Kaganovich Stalin voltou a repetir, que não se deveria insistir, que os intelectuais fossem comunistas).

Bulgakov com sua terceira mulher

Bulgakov tinha outros advogados poderosos da equipe de Stalin. Mas os grupos dos escritores proletários continuavam o xingamento do escritor. Nesta situação Bulgakov escreveu a carta famosa para Stalin, pedindo emprego. Stalin deu uma directriz para isso. E Bulgakov sempre tinha emprego (diretor-assistente, intérprete, libretista, ator, etc.). Bulgakov comreendia a mudança do rumo ideolôgico: em 1936 foi censurada a peça do poeta-bolchevique Demian Bedny, quem se burlava do batismo da Rússia (coisa absolutamente normal até 1936!). Bulgakov em seguida começou a escrever uma peça sobre o principe Vladímir-Batista (não terminada). E mesmo que ele fosse censurado, Bulgakov tranquilamente sobreviveu os anos terríveis para os intelectuais frondistas do purgamento pré-guerra: 1937, 1938 (sic!). Em 1939 Bulgakov até escreveu uma peça sobre Stalin mesmo – “Batum” e já se preparava sua encenação! Grosso modo, os romances “Mestre e Margarita” (1940, publicado na URSS em 1960), “Molière” (1936, a peça foi censurada depois da estreia) também são obras sobre Stalin, mas a “Batum” de 1939 foi um intento já bastante exagerado de bajular o “Pai dos Povos”. Stalin não gostou de esta quebra moral de Bulgakov e deixou de responder as cartas dele (cada vez mais desequilibradas). Stalin lavou as mãos, como Pilatos. Estava cada vez mais ativa a dinâmica da IIGM, e Bulgakov não era nada atual para a agenda da URSS, além disso apareceram os escritores concorrentes (o futuro prêmio Nobel Mikhail Sholokhov, entre eles). Com isso queremos adicionar, que o nível de Bulgakov é questionavel até hoje por muitos literários TOP da Rússia dos campos asbsolutamente diferentes (Eduard Limonov e Dmitriy Bykov, por exemplo).

Bulgakov no final de sua vida

A morte do Mestre

Bulgakov morreu em 1940. Como ele se achava (por si mesmo) muito “perseguido”, isso ficou refletido em seus textos às vezes talentosos e quase sempre tóxicos, e evidentemente isso foi um presente para a propaganda anti soviética dos anos da queda da URSS. Objetivamente este mito da persecução (ou até da persecução pessoal pelo Stalin) não tem a ver nada com a realidade. Como se Stalin não tivesse outros assuntos no final dos anos 1930. A vida de Bulgakov não foi tão trágica como a dos outros escritores e poetas. Sendo drogadicta, cabeza quente, muito conflictivo, Bulgakov não era angel nenhum nas relações com a sociedade e tinha muitos enemigos. O mesmo exemplo de B.Pasternak mostra, que havia roteiros alternativos e também autônomos.

Não é simplesmente ridículo reduzir todo o Bulgakov à persecução imaginária de Stalin, mas é um insulto contra a memória do escritor. Bulgakov, igual ao Pasternak ou Mandelstam, foi magnificado pela figura de Stalin. Stalin, o poder, é o tema principal de seu analise literario e de sua obra chave “Mestre e Margarita”. 

Bulgakov não era tão arrivista e imprudente como Osip Mandelstam (Mandelstam entrou na nomenklatura dos autores melhor pagos e caiu vítima da luta entre as elites), mas sim Bulgakov era valorizado pessoalmente por Stalin. Quanto à pobreza relativa de Bulgakov, sem falar da situação econômica no país dos anos pré-guerra, achamos, que vale lembrar do caminho dos gênios em qualquer tempo: a lista dos autores famosos, que acabaram na pobreza no Ocidente é interminavel e não tem a ver nada com Stalin).

Também é compreensível, que o regime actual da Rússia precise dos “mártires” para legitimar a decadência e o saqueio dos anos 1990-2000. Mas M.Bulgakov, B.Pasternak, até A.Platonov não estão entre os mártires do jeito nenhum. E até os quase mártires, como O.Mandelstam também não eram simplistas na sua relação ao projeto soviético. 

Nós não retiramos o Bulgakov da “constelação das estrelas” da literatura russa. Só dizemos, que sua estrela duvidosa deixou de dar luz na Rússia há muitos anos, também explicamos as razões ideológicas da conjuntura de esta “luz”. Sim, foi investido muito dinheiro na imagem de Bulgakov (filmes medíocres pós-soviéticos, traduções com os comentários ideologizados e falsificados). A propaganda chega ao Brasil devagar (é possível que O.Mandelstam e A.Platonov nunca cheguem, porque são mais sofisticados, até na Rússia pouca gente lê-los, mesmo que A.Platonov seja mil vezes mais forte do que qualquer Bulgakov).

P.S.

Pessoalmente eu, o autor deste ensaio, me sinto muito semelhante com Mikhail Bulgakov, acho que somos quase duas almas irmãs por causa das viradas históricas, que vivimos os dois, eu acho que compreendo muito bem seu patrimônio dos panfletos e seu espírito cínico e inadaptavel, e claro que sempre lhes ofereço os tours pela literatura russa, a ideia de este texto foi salvar a imagem de Bulgakov da simplificação idiota dos últimos 30 anos:


Feliz dia da Cosmonáutica!

A cosmonáutica, sendo uma sublimação da Guerra Fria (Corrida espacial)*, ao início gerou muito otimismo. Não foi apenas o avanço da Modernidade. Foi um grande desafio da cognição do mundo e da autocognição. Sergei Korolev, Wernher von Braun acreditavam nas civilizações extraterrestres, esperando um “contato”. Desde a Lua, as pragas da humanidade, como racismo, nacionalismo, etc., pareciam ridículas, era evidente a tese da convergência dos elementos socialistas e mercantilistas na Terra. Para? Para conhecer o Universo e se aperfeiçoar! O pensamento até se tornava pós-humanista, já que originalmente o cosmismo russo propus a superar a Morte mesmo, sair dos limites do corpo físico humano.

Hoje, a Estação Espacial Internacional continua sendo um dos símbolos da alta cooperação dos terráqueos. Mas. A quem. Interessa? Parece chato!

O efeito dos primeiros passos, que eram muito grandes, desaparece. A cosmonáutica é privatizada, torna-se mesquinha.

“Basta de dar de comer aos cosmonautas! E eles não são cosmonautas nenhuns: voam a 400 quilômetros, é a atmosfera da Terra!” – reclamam os entusiastas, preocupados com o desperdício de recursos (a cosmonáutica pilotável consome ⅓ parte do orçamento cósmico russo todos os anos, enquanto os japoneses, sem estar na EIE, fazem mais descobrimentos com ajuda de seus robôs ou modelos matemáticos) .

A cosmonáutica “frea” e “patinha” devido ao colapso da URSS, que foi arruinada em parte pela Guerra das Estrelas! À medida da desaceleração da cosmonáutica aumentam o racismo, o nacionalismo e outras pragas da humanidade. Mas a cosmonáutica não para.

E hoje nos lembramos de um dos momentos mais altos da história do planeta Terra: do primeiro voo do ser humano ao cosmos.

Feliz dia da cosmonáutica!

* É muito importante lembrar que o Sputnik em 1957, o voo de Y.Gagarin em 1961, etc. não eram meras prioridades da URSS, mas sua resposta assimétrica ao tremendo poder dos Estados Unidos. EUA depois da 2GM se acharam um líder indiscutível com o maior parque dos aviões no mundo. Se discutia somente a data do bombardeio atômico da URSS, cujo espaço aéreo foi sistematicamente violado até 1960, quando a URSS abateu um Lockheed U2 sobre os Urais – graças aos fogetes de seu programa espacial (!). Vostok – o nome, dado à primeira família de foguetes russos – quer dizer em russo “Oriente”: foi um triunfo do Oriente coletivo (Vostok) contra o Ocidente (seja em forma da Alemanha Nazista ou dos EUA).


Vitaly, é costume aqui dar gorjeta a motorista de táxi e Uber?

Uma pesquisa pouco confiável do ano 2016

A pobreza em massa é um fenómeno novo para a Rússia pós-soviética (segundo os dados do governo russo, um 15% dos russos vivem abaixo da linha da pobreza, se nós usarmos o padrão ocidental, esse número será muito maior). Assim, a tradição de gorjetas, que desapareceu depois da Revolução de 1917, desde 1991 está voltando.

Os motoristas de UBER/YANDEX ou os garçons dos restaurantes são as pessoas que estão no fundo da sociedade (em geral são migrantes das repúblicas outrora soviéticas, que depois da queda da URSS, caíram na Idade da Pedra: Quirguistão e Armênia, Uzbequistão e Tadjiquistão, Ucrânia e Moldávia). 

O salário diário dos taxistas nos últimos 7 anos caiu 3 vezes (graças à uberização). Se registram os casos das mortes dos taxistas em “seus” carros por trabalhar demais, como também morrem por trabalhar demais os entreguistas de comida, caindo de “suas” bicicletas. Sua vida é quase um inferno com o objetivo de entrar na classe média baixa.

Mas os usuários de UBER/YANDEX/SAVE-TIME também são as pessoas relativamente pobres, que lutam por não cair da classe média baixa ao submundo do UBER!

Em contrapartida os ricos não usam UBER, ou melhor dizendo, os ricos usam algum Uber Super Lux Plus (ou eles tem seus motoristas privados para não pagar nunca pelo estacionamento). 

A maioria dos russos não comem nos restaurantes onde há garçons, eles comem de vez em quando nos restaurantes de autosserviço, onde nem tecnicamente há jeito de deixar gorjetas.

Acontece então que os usuários de UBER, as pessoas que comem nos restaurantes de mass market ou as pessoas que compram a entrega de produtos QUASE NUNCA DÃO AS GORJETAS.

A situação da gorjeta acontece entre um rico e um pobre, e eles tecnicamente podem se encontrar só num lugar de chique, por exemplo, num restaurante do nível mais ou menos alto: cliente e garçom. 

Segundo uma pesquisa da opinião pública (pouco confiável) um 40% dos russos dizem, que deixam as gorjetas nos restaurantes e bares (mas é importante compreender, que a maioria dos russos não comem nos restaurantes com garçons cada dia, senão 1 vez por ano ou por vida). Só um 12% dos russos dão gorjetas aos taxistas (quando o uso de táxis é muito mais frequente e rutinario que comer num restaurante com garçons!).

Os líderes da opinião pública (que representam os ricos) nos aconselham a dar as gorjetas. Mas pela lei ainda não é obrigatório na Rússia.

No setor turístico também as gorjetas se tornam comuns. Alguns de meus motoristas até colocam em seus carros os cartéis: “tips are welcome”. Certos restaurantes já incluem as gorjetas na conta (incluem, porque os clientes não querem dar as gorjetas voluntariamente). Cotando os pacotes turísticos eu nunca espero as gorjetas, nem as incluo, mas a maioria de meus clientes ficam felizes com meu trabalho e deixam as gorjetas, claro que isso soube muito minha autoestima e isso é uma boa inversão de seu dinheiro.

Resumindo, entre os russos a gorjeta ainda não é comum. A última moda é oposta – procurar os cashbacks (programas de recompensa por pagar com certos cartões). Mas no setor turístico as gorjetas são bem-vindas (também pela lógica da desvalorização da Rússia: a Rússia se tornou um dos destinos mais económicos, vale a pena agradecer aos russos).

P.S.

Pode ser curioso que é quase uma tradição aqui de agradecer aos médicos ou aos professores do setor público com os pequenos presentes (tradição se formou no tempo de déficit ao final da Perestroika e avançou no tempo do fome dos anos do capitalismo selvagem). Os presentes podem ser pessoais ou coletivos. Com os coletivos há problemas: os filhos dos pais, que não podem ou não querem pagar tal dinheiro à escola, por exemplo, correm risco de bullying. Porque outros pais pagam – pela pressão da escola ou pela pressão de alguns pais ativistas idiotas. E o dinheiro não sempre vai para o professor ou para as reformas de aulas, este dinheiro facilmente pode ser roubado pelo diretor ou pelo chefe do comité dos pais. Nestes casos as gorjetas direitas seriam mais honestas, e muitos russos preferem presentear algo simbólico (com frequência já em forma de dinheiro), mas diretamente para o professor ou o médico.


Top 5 dos santos ortodoxos

O Centro Pan-Russo da Pesquisa de Opinião Pública (em russo WCIOM) fez um estudo sobre os santos dos russos ortodoxos:

Quantos santos ortodoxos você conhece?

Você pode nomear até 5 dos santos mais conhecidos?

E foi formado o seguinte “ranking”:

  1. São Nikolai, o Milagroso (48%)
  2. Matrona de Moscou (39%)
  3. Serafim de Sarov (18%)
  4. Mãe de Deus / Virgem Maria (14%)
  5. Sergio de Radonezh (11%)
  6. Jesus Cristo (10%)
  7. etc.

Para os russos este “ranking” é bastante natural. 

São Nikolai é nosso Papai Noel, também chamado no período do Ano Novo de Vovô Frio ou Vovô Gelo. Ele era considerado na época do Império dos Romanov um “Deus dos muzhiks (camponeses de gleba)”, produto do sincretismo entre a religião ortodoxa e as crenças pagãs. Segundo uma lenda popular, ele até deveria virar o Deus, mas recusou.

Santa Matrona, iluminando a Stalin

Matrona de Moscou é uma santa quase contemporânea (morreu em 1952), sua imagem popularmente está associada com Stalin: segundo um apócrifo popular, ela teve um encontro com Stalin durante a Batalha de Moscou e sugeriu ao comandante em chefe sobrevoar Moscou 7 vezes com o ícone de Nossa Senhora do Rio Don, e assim os russos ganharam a guerra contra toda a Europa Fascista. Muito fácil, né? Ao mesmo tempo, é certo que na véspera da 2GM o governo soviético prestou muita atenção à Igreja (separada do Estado depois da Revolução) e até começou a financiá-la para mobilizar toda a sociedade russa, incluindo a direita e a parte obscurantista da povoação.

Serafim de Sarov

Serafim de Sarov tem sido muito promovido ultimamente pelo oficialismo com ajuda da ideia de que ele possa ter inspirado o projeto atômico na URSS. Além disso, ele foi canonizado por Nikolai II e tem a ver com o mito “daquela Rússia que tínhamos perdido”. O santo atuava na área, onde mais tarde ficou uma cidade fechada dos cientistas e militares soviéticos feita para desenhar a bomba atômica. É lógico que este santo atualmente ganha a popularidade mediante apoio das Forças Armadas e da Agência de Energia Nuclear. Ambas instituições ainda não são privatizadas e continuam sendo os elementos mais modernos da Rússia. Serafim de Sarov se tornou a capa da ideologia da “ortodoxia atômica”.

Apesar da proibição de qualquer ideologia na Rússia pela Constituição pós-soviética, a Igreja Ortodoxa Russa e as demais fés tradicionais (Islã e Budismo) de fato têm todo o apoio do Governo para preencher o vazio ideológico com a ecléctica direitista. Mas vemos como Matrona de Moscou e Serafim de Sarov estão trazendo de contrabando o pacote soviético à consciência dos russos: o culto de Stalin (Estado forte e igualitário) e das altas tecnologias.

O perigo é que se tirarmos do “Stalin” os elementos pró-sociais, ficaremos com um “Pinochet”. E se deixarmos as altas tecnologias só com os ícones e as velas, receberemos “Cargo Cult”¨: os foguetes com motores a vapor de água benta.

Também pode parecer estranho que Jesus Cristo não esteja no Top 5 do ranking. Já Dostoiévski começou a questionar o lugar de Cristo nas igrejas oficiais (Lenda do Grande Inquisidor). Mas isso tem uma gênese mais profunda: nas igrejas ortodoxas russas o tema da Paixão de Cristo foi acentuado pela influência ocidental e só ao final do século XVII (quando a fila com estes ícones foi colocada no top do icionstacio, coroado desde aquel então com crucifixão). Também pode ser porque a natureza humana de Jesus não foi levada a sério pelo pensamento religioso na Rússia (apesar do conservadorismo ortodoxo, que acha que o Espírito Santo parte só do Deus Pai e não do Deus Filho). Por consecuencia, Jesus não é visto como um homem, senão como um Deus ou um avatar de Deus. Por isso, os inquiridos pensando em santos, não pensam em Jesus, que para eles é mais do conceito da Trindade e está acima de todos os santos.

É curiosa também a opinião popular sobre Jesus ouvida pelo escritor Mikhail Príshvin durante a Guerra Civil russa do início do século XX:

– Ele foi solteiro, sem filhos e não trabalhou, não é um exemplo para gente, nossa vida passa mais nos dias úteis, quando Ele tinha só festas. Seu caminho de salvação é impossível para gente.

– E vivem sem ser salvados?

– Grande maioria da gente não precisa disso: se dá pão – diremos: Graças a Deus! Não dá pão – há de aguentar. E vocês /os intelectuais/ não podem aguentar, se lhes tocou a dificuldade – vocês em seguida ligam para Cristo: isso é sua debilidade e o engano de orgulho, porque vocês não querem trabalhar, só querem andar, ensinar, sonhar…

Deve ser que por isso para um muzhik russo sejam mais importantes os milagros do Vovô Frio (São Nikolai, o Milagroso), que a filosofia de Jesus, revolucionária no fundo, mas escurecida pelos séculos da corrupção da Igreja.

Leia mas:

Ecléctica do putinismo na religião

Irgeja Ortodoxa Russa no Exterior

O povo russo é um povo porta-Deus?

Igreja Ortodoxa Russa vs Revolução


“Escola da vida. Memórias das crianças do cerco de Leningrado”

Meu exemplar do livro tem uma queimadura no bloco das páginas, onde as tocamos com os dedos para folhear. Pensei que este livro foi desenhado de tal jeito a propósito, mas não, o livro realmente sofreu uma queimadura. Encontrei este livro num bookcrossing.

Há muitas memórias da Grande Guerra Patriótica. “A guerra não tem rosto de mulher”, uma coleção das entrevistas das mulheres (este livro de S.Alexievich foi escrito antes da degradação intelectual da autora). Há memórias das crianças da Bielorrússia, onde havia campos de concentração para as crianças – os nazistas lhes tiravam o sangue para fazer transfusões a seus soldados.

Então agora acabo de ler as memórias das crianças, que viveram o cerco a Leningrado.

Apagão total.

Comida baseada na cola de madeira estava uma delícia. Igual ao “сafé da terra”, ou seja da terra encharcada com algo de açúcar e cinzas, resultado do bombardeio consciente dos nazistas dos Armazéns Badáievskie. 

Não funcionam aquedutos, nem tubulações para os esgotos. Dejetos humanos estão nos patamares de escadas, nas ruas.

Os fogões improvisados são usados só para aquecer a “comida”, queimando livros e móveis. Não há calefação, não há janelas de vidro e faz frio de menos 40 graus.

Cadáveres congelados dos pais nas camas junto aos órfãos, que ainda estão vivos.

Cadáveres dos vizinhos nas ruas com as bochechas cortadas.

Os gatos comendo outros gatos.

O escritor infantil Daniil Harms de origem alemão corre pela cidade, gritando que pronto ele vai junto com os nazistas matar aos soviéticos das metralhadoras. E ele não foi condenado a pena da morte, senão colocado num manicômio (hoje este homem está “canonizado” como um “dissidente”, ele foi um autor talentoso, eu li quase toda sua obra e gostei muito sem saber nada de sua biografia real, ele morreu de fome, mas sua mulher fugiu da URSS com os nazistas e acabou na Venezuela).

A vida está subordinada à guerra, os cidadãos estão classificados e alimentados segundo sua utilidade à Vitória e à sobrevivência do povo soviético. As mães jovens na evacuação trocam o sexo por uma lata: com uma só lata miserável elas podem alimentar suas crianças durante umas semanas.

Surgem o mercado negro, o banditismo, o fraude com os cartões de comida. A sociedade ainda é ex-camponesa, ou seja bastante cruel, se levanta o cinismo, acondicionado pelos resíduos da Guerra Civil (a Guerra Civil se acabou só uns 15 anos atrás!).

A vida humana e a dignidade se mantém exclusivamente graças ao Estado Soviético e ao Partido Comunista (fundamental para a Sociedade Civil daquele tempo) com seus disciplina de ferro e auto-sacrifício. Se organiza a distribuição daquele minimum do comestível que havia, trabalham os hospitais, se mantém a limpeza da cidade, se realiza o enterro dos mortos nas fossas comuns (registrando os sobrenomes). A educação das crianças se continua nos abrigos antiaéreos, até as festas infantis são organizadas! (claro, que ninguém dançava por não ter forças, só aguardavam algo para comer, mas ninguém comia, tudo foi levado à casa para compartilhar com a família). Super importante foi a animação com ajuda da rádio, onde trabalhavam os melhores poetas e músicos… E tudo isso foi secundário, porque em primeiro plano estava a defesa e a causa militar. Se Leningrado fosse cedida, sua população seguramente seria assassinada (os nazistas não planejaram trazer a comida para os russos, que sorpresa!), mas também caeira todo o frente de Murmansk (se perderia a comunicação com os aliados pelo Mar de Barents!), seria liquidada a indústria de Leningrado, a Armada no Báltico, e seguramente caeria Moscou, cuja povoação também seria assassinada pelos nazistas.

Lendo os livros deste tipo os leitores podem se surpreender, como é que os russos não mataram todos os alemães e seus puxa-sacos (quase toda a Europa colaborou com muito prazer e sem resistência relevante)? Isso foi outra proeza da URSS, um dos pontos mais altos na história da civilização.

Visitando São Petersburgo e ouvindo as falácias dos guias locais, que costumam elogiar o tempo do pesadelo dos Romanov, lembrem, por favor, da façanha de Leningrado, dos bombardeios “humanitários” europeus, da fome, do crime sem precedente da lesa humanidade, que cometeram o povo alemão e Europa Fascista. E os EUA também! Os EUA que poderiam salvar a situação, se entrassem na guerra não no final, senão no início (hoje os EUA gostam de capitalizar a memória da guerra, fazendo filmes sobre os judeus na 2GM, mas eles poderiam salvar pelo menos estes judeus – os americanos não fizeram quase nada para isso, sem falar dos interesses estritamente lucrativos que tiveram muitas elites americanas com os nazistas alemães).

Lembrem também, que todo o centro histórico de São Petersburgo é uma restauração soviética de Leningrado.

Um dos monumentos culturais mais belos da Resistência da Cidade de Lenin é o metrônomo de alarme antiaéreo, que pode ser ouvido nas certas ruas até hoje.


Slow Food Russo

Alguns países têm associações gastronómicas fortes: pizza é italiana, sushi é japonês, etc. Até certas nações podem ser xingadas com termos pejorativos culinários: os franceses de “frogs”, por exemplo (pelos ingleses y por todo o mundo) e os russos sempre são “cegos de vodka” [1]. Claro que essas associações “de barriga” são de burla, devem ser as últimas na lista (são associações de padrão baixo). Ao mesmo tempo o próprio fato de projetar sua tradição gastronômica no imaginário mundial é uma característica do protagonismo histórico. É curioso também que países hegemônicos como Inglaterra e EU de Norteamérica não tenham boa fama de suas cozinhas.

E a Rússia, que no seu ápice controlava quase meio mundo? A Rússia tem uma das cozinhas mais ricas na Galáxia. Vamos apresentá-la!

Antes de tudo a cozinha russa é um “slow food”. As lareiras dos russos são muito grandes e pesadas (sempre com seu próprio fundamento), porque são vitais para a sobrevivência no país mais frio do mundo. Durante o inverno as lareiras aqui estão em função 24 horas (primeiro o tijolo absorve o calor de fogo, e logo o retorna, as temperaturas dentro da lareira variam de 300 a 60 graus) e como a lareira depois de consumir suficiente lenha continua trabalhando muitas horas no regime do “slow fire”, é oportuno cozinhar algo devagar em potes. Dahí vem o “slow food” russo [2]. A lareira russa é para refogar, gratinar, secar. Nunca no fogo aberto, ou seja é um processo muito sano: a comida sai delicada, suculenta, com todos os elementos conservados.

Os ingredientes para mingaus, sopas, guisados e pastelões russos são florestas, rios e campos da Rússia. As florestas dão cogumelos, carne de caça (também frutinhas, mel e ervas), os rios dão peixe (os russos antigamente comiam mais peixe que carne) e os campos dão grãos e raízes alimentícios.

Liev Tolstói, o vegetariano mais famoso da Rússia

Sopas de beterraba, borsch, e de repolho, schi (vegetarianas ou com carne), mingau de trigo mourisco, conhecido no Brasil, como sarraceno (vegetariano ou com carne) [3], carne com batata e cogumelos em caldeirão – estas são as comidas tradicionais do “slow food” russo.

Pese que o cardápio russo seja tão diversificado, como a Rússia mesma (cada uma das 85 regiões da Rússia atual tem seus pratos típicos ou seu sotaque para fazer os pratos nacionais), a cozinha russa tem certos elementos fundamentais, dos quais os russos ficam com saudade quando vão ao exterior: entre eles o pão preto (de trigo de centeio), o “salo”, toucinho do dorso do porco, curado em salmoura, o trigo sarraceno, o arenque salgado e os produtos lácteos russos, cuja variedade é infinita.

Molokó (leite em russo) expulsando “Coca-Cola”

Uma explicação da variedade láctea são as distâncias russas, que tomam difícil conservar a leite fresco. Ao mesmo tempo alguns peritos opinam, que a instabilidade permanente da vida russa não deixou o nosso povo desenvolver a variedade de queijos. Dos lácteos podemos mencionar aqui “smetana”, uma espécie de creme de leite, só mais azedo, saudável e rico [4], “ryázhenka”, um iogurte, fermentado do leite cozido, “kefir”, um leite fermentado de um jeito muito especial do Cáucaso russo [5] e tvorog, uma espécie de queijo quark, que em alguns países como a Itália, Argentina, Paraguay e Uruguay tem um produto semelhante etiquetado de Ricotta.

uma familia russa fazendo os “pelmeni”

Alguns produtos se integravam à cozinha russa mediante o fatum geopolítico da Rússia. Assim os mongóis trouxeram a Rússia no século XIII os “pelmeni”, os trouxeram da China [6]. Os pelmeni sempre são de carne (até da carne do urso) ou de peixe. Quando os varenikes podem ser de batata, repolho, ou até podem ser doces – de tvorog. Por certo na Itália os pelmeni são conhecidos como ravioli (estes ravioli, igual que a pasta famosa foram trazidos por Marco Polo da China mesma, onde Marco Polo trabalhou para os mongóis, donos da China nos séculos XIII-XVI). O prato mais famoso do Cáucaso é shashlyk, espetinho de carne, assada no fogo depois de certa têmpera. O shashlyk nos anos 1970 se tornou tão popular que quase substituiu a atração russa de pescar e fazer no fogo a sopa de peixe.

Do Cáucaso veio também o kefir, do qual falamos acima. Sua história é romântica. Uma especialista russa da indústria alimentícia Irina Sájarova foi enviada numa missão especial ao Cáucaso para descobrir o segredo do kefir. Bekmurzá Baichorov, um príncipe da Kabardá, se apaixonou por ela e a sequestrou, mas foi apresado pela polícia. Irina Sájarova perdoou seu crime, pedindo como recompensa 5 kilos dos “grãos de Maomé”, os microrganismos simbióticos necessários para produzir o kefir. Assim, o kefir primeiro se comercializou ao início do século XX …nas farmácias como um remédio para as doenças do tubo digestivo, mas logo se tornou popular (é comum para quitar a ressaca). Da Ásia Central veio o plov/pilaf, um arroz especial, cozido em zirvak, um líquido que se prepara num caldeirão especial, onde 1) fritamos cebola na gordura de cordeiro, 2) logo fritamos lá carne, 3) acima pomos a cenoura, cortada de palitos longos, 4) preenchemos tudo com água, 5) fervemos tudo com alho e especiarias uns 40 minutos, 6) depois da magia de várias horas cozinhamos lá um arroz especial durante uns 10 minutos.

A elite russa com frequência padece o ocidentalismo, assim as modas da culinária europeia todas depois de ser aperfeiçoadas estão presentes na cozinha russa. Basta com dizer que a “salada russa” na Rússia é conhecida como “Olivié” pelo sobrenome de um chef francês, quem desenhou esse prato para seu restaurante em Moscou. Ou seja para os russos esta salada soa francês. E é verdade que segundo as pesquisas da opinião pública o olivié se considera um dos pratos mais queridos pelos russos, associado com a festa do Ano Novo, produto duma ecléctica típica para a cultura dos russos.

O fator climático dividiu o ano culinário russo nas temporadas: o inverno é tempo das verduras e frutinhas conservadas (mediante sua fermentação, salmoura, cozimento). Fermentam o repolho, salmouram tomates, pepinos, cogumelos, patissones, etc., cozinham em xarope de açúcar framboesa, arandanos, maçãs, morangos (com frequência são frutinhas selvagens – das florestas) e muitas outras.

E para beber? Sem falar da vodka, nós russos bebemos muito chã (que pode ser de ervas bem diferentes), chocolate, cada vez mais café, tradicionalmente bebemos compotas [7], morses [8], kisseis [9], e até seiva de bétula! E a Coca-Cola russa se chama Kvas, um produto da fermentação de cevada só quase sem álcool [10]. De sobremesa comemos mil tipos de pasteis, crepes, tortas doces, etc., frequentemente com mel (também há mil tipos de mel) ou com frutinhas cozidas em xaropes de açúcar.

a cozinha russa não é um fast-food

Se você quer provar as comidas exóticas russas, lhe podemos sugerir os pratos, como o aspic russo, jolodets – na Rússia sempre é um caldo de carne, que se acompanha com rábano picante ou mostarda. Também é recomendável a salada baseada no arenque, que se chama literalmente arenque de baixo do abrigo de pele, é um “abrigo de pele”, formado de várias camadas de beterraba e batata cozidas e banhadas na maionese, que cobrem o arenque salgado na camisa de cebola. Tanto arenque baixo abrigo de pele, como jolodets são ideais para acompanhar vodka (que os russos bebem de um gole). Também pode ser interessante a sopa russa de verão (fria), que se chama okroshka, são pepinos, batata e ovos cozidos, verduras e carne cortadas finamente e logo preenchidos com kvas, se acompanha com smetana.

Comentarios:

  1. Até na religião, seja ortodoxa ou católica, o alcoolismo está súbdito ao pecado de Gula.
  2. A vida humana sempre foi determinada pela questão do aquecimento. A palavra “hogar” em espanhol vem da palavra latina “focus” ou seja “fogo”, assim na língua russa também a palavra casa de camponês, “izba”, vem do verbo “fazer fogo, aquecer”. Só o “focus” russo ocupava uma terceira parte de casa! Depois de um incêndio a lareira ficava em seu lugar e a vida se continuava. Por isso durante a IIGM Hitler deu uma ordem especial para destruir as lareiras russas (depois de queimar os povoados), mas a lareira russa venceu e a calavera do Hitler com um buraco de bala suicida, queimada, hoje se guarda num arquivo da FSB (outrora KGB).
  3. Trigo mourisco é conhecido também como “trigo sarraceno”, os russos o chamam “trigo griego” – se come na Rússia, Ucrânia e China, quando em Europa se vende só nas lojas eco ultra. O trigo mourisco na Rússia e Ucrânia se considera comida estratégica e a mais económica, a subida do preço de ele pode provocar uma crise social.
  4. Smetana é indispensavel para borsch, sopa de beterraba.
  5. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kefir
  6. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Pelmeni
  7. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kompot
  8. https://es.m.wikipedia.org/wiki/Mors_(bebida)
  9. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kissel
  10. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Kvas

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Moscou para as crianças

É bastante comum que as pessoas venham para Moscou em família: os pais com seus filhos pequenos, sejam crianças ou adolescentes. É absolutamente normal, porque a capital russa tem muito a oferecer para o turismo familiar. Abaixo damos algumas dicas de lugares para se disfrutar de Moscou em familia:

Parque Zoológico e Planetário

O Planetário de Moscou está situado diretamente na área do Parque Zoológico, por isso ambas visitas podem ser feitas no mesmo dia. Nosso planetário é um dos maiores no mundo, fica no Anel dos Jardins – https://goo.gl/maps/NVbb5o341kk É mais prático ir ao Planetário de táxi ou de ônibus “B”. Aqui você tem a página oficial do Planetário de Moscou: http://www.planetarium-moscow.ru/en/

O planetário tem muitas programações em inglês. Uma das programações mais universais (serve para os russos e para os estrangeiros) é o filme 5D, “Vôo sobre Moscou”. Chuva, vento e vibração dos assentos – tudo isso cria ilusão dum vôo sobre a cidade: sobrevoamos a Praça Vermelha e outros lugares emblemáticos, voamos por dentro das câmaras dos czares, dentro dos túneis de metrô, etc. (*ATENÇÃO: esta atração foi mudada para o Parque ZARIÁDIE: https://www.zaryadyepark.ru/en/schedule/11925/)

O Zoológico de Moscou é um dos mais antigos na Europa, entra no TOP 10 mundial dos zoos mais visitados. Fica no Centro, no Anel dos Jardins mesmo, assim, que passeando pelo Zoo, vocês sempre podem ver um arranha-céu estalinista – o prédio da Praça da Rebelião de 1905 (renomeada hoje para “Praça Kúdrinskaya”, que já não tem significado nenhum). O Zoo nosso tem várias entradas. Uma fica perto da entrada do Planetário, a entrada principal está aqui: https://goo.gl/maps/GHcKZDSSTPE2 As meninas ficarão impressionadas pela gorila Ama, que não tem um braço, e por uma loba-do-ártico com perna torcida, efeito da armadilha de um caçador, que ela sofreu quando era pequena. Se suas crianças têm interesse pela biologia, também podemos sugerir o Museu Charles Darwin: http://www.darwinmuseum.ru/pages/about-museum

Torre Ostánkino (atenção: 7+) e Parque VDNKh

Segundo a experiência de nossos pequenos clientes (antes de tudo, dos meninos) a visita à Torre Ostánkino deixa umas das impressões mais fortes de Moscou. A torre tem um mirante de tirar o fôlego, um restaurante giratório (que se chama o “Sétimo Céu”) e um bar. A página da torre em ingês: http://tvtower.ru/en/services/buro/

A subida à Torre Ostánkino se combina perfeitamente com visita ao parque VDNKh (feira dos êxitos da economia popular em russo, um artefato genial do período da URSS). O parque VDNKh é um Machu Picchu soviético, que além dos pavilhões temáticos, hoje tem muitas oficinas para as crianças e vários espaços de brincadeira, um recreio desenhado ao estilo cósmico fica ao lado do maquete de nosso transbordador espacial BURAN. Pelos invernos o parque VDNKh se torna a maior pista de gelo da Rússia, é o melhor lugar para patinar em Moscou (tanto no gelo, como no asfalto pelos verões). O parque VDNKh tem um oceanarium novo, tem uma granja, onde as crianças podem ter contato com os animais, tem lagos para pescar, etc. É um parque para passar uns 5 anos. A página do parque VDNKh em ingês: http://vdnh.ru/en/

Na área do parque VDNKh fica também um Museu que pode ser interessante para as crianças e adolescentes: Museu da Cosmonáutica – sugerimos visitar este museu e parque VDNKh com guia, porque a história da cosmonáutica soviética, igual à história económica da URSS não é simples para compreender com ajuda da Wiki. A página do Museu da Cosmonáutica: http://www.kosmo-museum.ru/?locale=en

Além da Torre Ostánkino, outro mirante que recomendamos é o Mirante do shopping “Mundo Infantil”, pelo caminho ao mirante, que fica no 6to andar sugerimos passar pela “Exposição dos Brinquedos do Período Soviético”. O shopping “Mundo Infantil” fica no coração de Moscou, na Praça Lubiánka, tem uma praça da alimentação no 6to andar. Atenção: ao entrar ao shopping vão direto para os elevadores e logo para o mirante do andar, no caso contrário sua família pode ficar na bancarrota. O endereço do shopping: https://goo.gl/maps/TAhGofi8zxT2

Moscou militar

O pequeno e íntimo Museu da Defesa de Moscou recria muito bem as condições de vida do dia a dia da capital russa durante a Batalha de Moscou: http://www.gmom.su/ (embaixo da página o museu tem uma apresentação em inglês: horários, endereço, etc.)

Se suas crianças têm muito interesse pela guerra, também recomendamos o Museu Central da Grande Guerra Patriótica, que fica no Parque da Vitória. Este museu, dentre muitas coisas, tem uma recreação impressionante do Assalto de Berlim, além duma exposição dos armamentos ao ar livre. A página do Museu Central da Grande Guerra Patriótica: http://victorymuseum.ru/ (no canto esquerdo superior da tela vocês podem ativar a tradução da página para o português). Outro local, onde se pode ver muito mais armamentos russos, é o Museu das Forças Armadas: https://goo.gl/maps/Dyp8SvPFqeM2

É bastante conhecido também o Bunker-42: esse museu tem muito potencial, mas é caro demais e seu conteúdo não corresponde ao preço cobrado. Cada ano é pior por causa da primitividade, vulgaridade e mercantilismo de seus gerentes, embora pudesse seriamente ser um Museu da Guerra Fria. Mas para as crianças é uma opção muito boa! http://bunker42.com/eng/

Parques e Jardins de Moscou

Os parques e jardins de Moscou são deveras geniais e tem muitas atrações tanto para os adultos como para as crianças. Áreas da recreação ativa são acessíveis nos parques Sokólniki, Izmáilovo, Filí, Meshcherskiy. Os jardins Bauman e Ermitagem quase todo fim de semana de verão tem algum evento para as crianças e para seus próximos. Não mencionamos aquie o parque Zariádie que fica perto da Praça Vermelha, porque é um “MUST SEE” №2 depois da Praça Vermelha mesma.

Circos de Moscou

Moscou tem vários circos, o circo mais histórico é o Circo Nikulin no Boulevard Tsvetnoi. Mas também aparecem os circos novos, que às vezes tem as programações bem fortes: como, por exemplo, o Circo das Fontes Dançantes “Aquamarine” (síntese das fontes dançantes, patinagem artística, palhaçada do nível mundial e certos shows do nível intergalaxial – como o show da família Markin (prêmio do Festival Internacional do Circo em Monte Carlo): https://goo.gl/maps/cwjCgCufv522

P.S.

Se vocês vão passar muito tempo em Moscou, claro que vocês vão descobrir muitas atrações, que não mencionamos:

Túnel de vento, https://i-fly.su/contacts/

Tiro “Laberinto”, http://www.strelclub.ru/

Bio Estação de Alces na Reserva Nacional “Ilha dos alces”, http://elkisland.ru/index/ehkskursii/0-8

Parque Patriot, https://patriotp.ru/

Para as crianças apaixonadas por dinossauros sugerimos o Museo Paleontológico, https://www.paleo.ru/museum-en/

E muitas outras. Além disso sempre podem encontrar algo interessante para as crianças nos calçadões de Moscou, que cada ano conquistam mais espaço no centro da Terceira Roma.


Os 7 fatos sobre o fuzilamento da família dos Romanov

Celebrando o centenário da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917 a imprensa oficial da Rússia inculca a ideia da causalidade da revolução russa (1905-1917), que foi “uma consequência bizarra da “sobreprosperidade” do Império dos Romanov e da confabulação de Grã-Bretanha/judeus/reptilianos”, etc. [1.] A “bonança” dos Romanov foi destruída pelos “bolcheviques satânicos” que “desviaram” a Rússia do “caminho natural” para 70 anos do “pesadelo do Stalin/GULAG/KGB”. Um dos elementos mais importantes da mitologia anti soviética é a história do fuzilamento da família de Nikolai Romanov (outrora czar da Rússia).

1. A dinastia dos Romanov começou com o assassinato de uma criança inocente

Os Romanov mataram um menino de 3 anos por “atividades criminosas”

É importante lembrar que a dinastia dos Romanov começou com o assassinato de uma criança inocente – Ivão, filho do Dmitri, o Falso II. Essa criança foi um dos candidatos para o trono da Rússia ao início do século XVII durante “o tempo escuro” [2.]. Certas regiões da Rússia não aceitaram a eleição (pouco democrata) dos Romanov e apoiaram Ivão, filho do Dmitri (a gente ainda não sabia que esse Dmitri foi o “falso II”: se seu partido ganhasse, ele seria verdadeiro). O partido dos Romanov ganhou, e Ivão, filho do Dmitri, o Falso II foi enforcado “por suas atividades criminosas”. O “criminoso” Ivã tinha apenas 3 anos. A corda dos Romanov não asfixiou seu pescoço suficientemente e ele morreu umas horas depois do enforcamento pela causa do frio de inverno. Assim os Romanov começaram seu governo de 300 anos [3.].

2. O governo dos últimos Romanov foi uma catástrofe para a Rússia

Nikolai II gostava de brincar com seu elefante e caçar corvos

O governo dos últimos Romanov foi uma catástrofe para a Rússia. O grande Liev Tolstoi (excomungado pela Igreja Estatal dos Romanov) escreveu, que a subalimentação de camponeses era permanente e a fome começava na Rússia não quando não havia boas colheitas de trigo, senão quando não havia boas colheitas de Atriplex (uma erva daninha que os camponeses costumavam misturar com o trigo, porque nunca comiam o pão de trigo puro). Os escritórios de recrutamento durante a Primeira Guerra Mundial registravam a desaceleração dos camponeses: se reduzia o volume dos pulmões, a altura, o peso, etc. A exportação de trigo dos últimos Romanov foi “faminta”: “Subalimentamos o povo, mas vamos exportar o trigo a qualquer custo!”.  Sem dúvidas, os camponeses consideravam os latifundiários “parásitas”. Durante a revolução de 1905, os camponeses queimaram cerca de 50% das casas de donos da terras na parte central da Rússia. A parte central viraria a base do bolchevismo. A Rússia de Nikolai II perdeu a guerra contra o Japão e sua atividade na Primeira Guerra Mundial foi pagar com a buxa de canhão seus dívidas ante os bancos da Inglaterra e da França (a produção dos armamentos na Rússia foi muito inferior que em outros países participantes da IGM, não é de surpreender que o Exército Russo tivesse um record de deserção).

3. Os bolcheviques não tem nada a ver com a abdicação do czar Nikolai II

Nikolai II chegou a estação “Submundo”

Os bolcheviques não tem nada a ver com a abdicação do czar Nikolai II. Nikolai II abdicou ao trono em março de 1917, no resultado da Revolução de Fevereiro de 1917. A Revolução de Fevereiro foi burguesa, realizada sob pressão do capital estrangeiro (o czar no caso de sua “iluminação” poderia se retirar da I Guerra Mundial, além disso sendo um autocrata ele não podia garantir a inviolabilidade dos investimentos do capital estrangeiro). A pressão dos liberais sobre o czar também foi alta: eles não gostavam do costume do czar de dissolver o parlamento russo (um parlamento fantoche). Os latifundiários odiavam o czar pelo monopólio sobre a produção de álcool (quando os preços de trigo caiam no mercado externo, o czar costumava produzir desse trigo a vodka e vender para a plebe essa droga para ganhar o dinheiro no mercado interno, hoje do mesmo jeito na Rússia crescem os preços da gasolina no mercado interno, quando o petróleo cai no mercado externo). Os generais e oficiais odiavam o czar pela humilhação do Exército, destruído pela política econômica dos governos tanto liberais como populistas de Nikolai II. Sendo boa pessoa,  Nikolai II por sua incapacidade governamental ficou o czar mais odiado na história da Rússia. A abdicação de Nikolai II foi aplaudida pelos latifundiários, militares, liberais, Igreja Ortodoxa Russa (sic!) e pela imprensa ocidental. Nikolai II, comandante em chefe abdicou do trono arrestado por seus próprios generais, quando seu vagão foi parado na estação “Dno” (em russo: fundo, submundo, o título do livro de M.Gorki “No fundo” é traduzido para português como “Ralé”, “Submundo”).

4. O rei inglês recusou a solicitação de asilo político de seu primo Nikolai Romanov

Nikolai II e Jorge V

Apresado pelo governo provisório da Revolução de Fevereiro, Nikolai II queria se refugiar na Inglaterra. Jorge V do Reino Unido foi primo do Nikolai Romanov (fisicamente são quase gemelos), mas o rei inglês recusou a solicitação de asilo político de seu primo Nikolai Romanov – o governo britânico não queria estragar as relações com o governo provisório russo, dirigido pelo maçom anglófilo Alexander Kerensky.

5. Lenin não tem nada a ver com o fuzilamento do cidadão Nikolai Romanov

O governo provisório de Kerensky não foi legítimo, não representava os povos da Rússia, que encontraram outra forma de sua representação – os “sovietes” (conselhos legislativos), coroados por Soviet de Petrogrado. Baseado no apoio do Soviet de Petrogrado mesmo o grupo de Vladimir Lenin em Outubro de 1917 deu um golpe contra o governo provisório do capital estrangeiro. É importante entender que no Soviet de Petrogrado os bolcheviques (partido de Lenin) compartilharam a maioria com outros grupos de radicais: o Partido Socialista Revolucionário da esquerda, os mencheviques e os anarquistas. Como os primeiros decretos do Poder Soviético foram os decretos de Paz (retirada da Primeira Guerra Mundial), expropriação da terra e cancelação da dívida ilegítima do czar e do governo provisório, bastante rápido começou a guerra civil russa: a grosso modo, entre os povos da Rússia e os exércitos privados dos latifundiários, apoiados pelo Ocidente. A guerra civil na Rússia foi acompanhada pela agressão militar dos 14 estados do Ocidente (imaginem só que a Rússia se tornou tão fraca e caótica que os países como Finlândia e Polônia ocuparam vastas regiões do gigante nortenho!). Além da guerra civil o grupo dos radicais que subiram ao poder, tinham muitos conflitos internos. Muitos Sovietes nas regiões foram controlados não só pelos bolcheviques, mas pelos Socialistas Revolucionários da esquerda também (o partido mais radical da Rússia, responsável por muitos atentados contra os czares, seus ministros e governadores) e por outros radicais incontroláveis. A decisão do fuzilamento de Nikolai Romanov e sua família foi tomada pelo Soviet de Urales, dominado pelos bolcheviques e Socialistas Revolucionários da esquerda, bastante contrarios à política do centro. É importante que o fuzilamento de Nikolai Romanov acompanhou a rebelião do partido dos Socialiastas Revolucionários da esquierda contra os bolcheviques em Julho de 1918 (a rebelião infectou várias cidades do Norte do rio Volga, os rebeldes contavam com a intervenção militar dos ingleses, estadunidenses y franceses pelo Mar Branco, os rebeldes tomaram vários prédios em Moscou e prenderam o chefe da Polícia Secreta dos bolcheviques – Dzerzhinsky. Antes de tudo eles mataram o embaixador da Alemanha! – tudo isso para revisar as condições de Paz, assinada pelo grupo de Lenin). Também em Julho de 1918 se abriu um novo foco da guerra civil – na região de Urales mesmo – com a rebelião da Legião Checoeslovaca (presos do Império Russo, estes soldados não reconheceram o poder sovıétıco e queriam continuar a I Guerra Mundial contra a Rússia desde dentro da Rússia do lado da França). Os Romanov foram exiliados para Urales pela segurança – mais longe da guerra civil, mas a guerra lhes encontrou nas Urales também! Para o governo de Vladimir Lenin, os Romanov foram um argumento importante para as negociações com o Ocidente e claro que os bolcheviques gostariam de julgar Nikolai Romanov publicamente por seus crimes incontáveis contra os povos da Rússia. Seu fuzilamento foi uma manifestação radical dos bolcheviques e Socialistas Revolucionários da esquerda da região de Urales, resultado do caos da guerra civil no contexto da escalada de ela. Não há nenhuma prova da decisão pessoal de Lenin ou de outros chefes do Partido Bolchevique sobre tal fuzilamento.

6. Fuzilamento do outrora czar mais odiado não deu impacto nenhum na Rússia

Se os Romanov foram fuzilados, de onde provêm todos os freaks que hoje se acham os Romanov? Simplesmente os radicais que odiavam os Romanov não conseguiram matar todos os Romanov. Os bolcheviques (que nos primeiros anos não controlaram nem seu próprio partido completamente) simplesmente deixaram a maioria dos Romanov ir embora do país. Nem fuga dos reis, nem fuzilamento do outrora czar mais odiado não deram impacto nenhum na Rússia, havia coisas mais emocionantes: a crise econômica e o desastre da guerra civil, produzidos pela política terrível de Nikolai II.

7. Os mais inteligentes dos Romanov reconheceram a verdade histórica dos bolcheviques. 

Alexandr Mijáilovich, neto do czar Nicolai I e tio do czar Nicolai II (também foi marido da irmã de Nicolai II), chefe da Direção da Frota Comercial do Império Russo escreveu: “Ocorreu-me que embora eu não fosse um bolchevique, eu não podia concordar com meus parentes e conhecidos e de forma imprudente condenar tudo o que os Soviets fazem, só porque isso é feito pelos Soviets. Sem dúvidas eles mataram três dos meus irmãos [para Alexandr Mijáilovich todos os radicais são bolcheviques], mas eles também salvaram a Rússia do destino de um vassalo dos aliados. O tempo, quando eu os odiava e tinha muitas ganas de chegar até Lenin ou Trotskiï, passou, porque eu comecei obter as notícias sobre um e depois sobre outro passo construtivo do governo de Moscou e encontrei-me com o fato de que eu sussurrava: “Bravo!” [4.].

Leia mais:

1. http://guiademoscou.blogspot.ru/2016/01/por-que-putin-tem-medo-de-lenin.html

2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Tempo_de_Dificuldades

3. http://guiademoscu.blogspot.ru/2013/12/los-romanov-mi-historia.html

4. http://guiademoscou.blogspot.ru/2014/05/os-ultimos-romanov-seriam-bolcheviques.html

Bibliografia:

Elena Prúdnikova

Serguei Kara-Murzá

Serguei Nefiódov

Boris Yúlin


mudanças na percepção de Liev Tolstói

Tenho clientes que querem visitar a casa de Liev Tolstói em Tula, sua famosa residência em Yasnaya Polyana. Por isso estou pensando se a imagem que nós os russos temos de Lev Tolstoi corresponde a sua imagem no exterior?

Grosso modo, na última etapa de sua vida este escritor genial foi um dissidente político, herege religioso e anarcopunk cultural. Excomungado pela Igreja Ortodoxa dos Romanov, Liev Tolstói foi considerado na URSS um “espelho da revolução russa” <1>.

O escritor foi excomungado na Catedral principal do Kremlin de Moscou! Ao mesmo tempo na primeira etapa de sua vida Liev Tolstói também foi um conde, guerreiro e amante dos prazeres da vida. Seu casamento foi celebrado numa das igrejas do mesmo Kremlin de Moscou! E ele é famoso mundialmente por sua obra “Guerra e Paz”, que refletiu a “complexidade florescente” <2> do Império Russo no século XIX.

Liev Tolstói, Maxim Gorki e Anton Chéjov

No tempo da URSS Liev Tolstói foi interpretado justo através de seu lado espiritual – podemos ver isso no filme soviético “Guerra e Paz” de 1967 <3>, concentrado no moralismo e populismo. É interessante notar que o lado espiritual de Tolstói, também entre os marginais ocidentais, teve um papel de destaque: o track mais famoso da banda inglesa “Yes” – “The Gates Of Delirium” (1974) foi inspirado no mesmo romance de Liev Tolstói “Guerra e Paz”! Ao mesmo tempo, a música britânica tão sofisticada (Yes, King Crimson, Uriah Heep, etc.) foi mais ouvida na URSS que no Ocidente <4>.

Mas também é possível interpretar Liev Tolstói através de seu lado “carnal” – acho que podemos ver isso no filme inglês “Anna Karénina” de 2012, concentrado no materialismo e elitismo.

Nós russos, acostumados ao nível alto do cinema soviético, não aguentamos tais interpretações ocidentais. Tanto o filme “Anna Karénina” de 2012 (Inglaterra), como, por exemplo, o “Doutor Zhivago” de 1965 (EUA) para o gosto dos russos são uma espécie de pornochachadas brasileiras. Sabemos que estes filmes são êxitos no Ocidente e muitos clientes nossos compartilham conosco suas impressões positivas destes filmes, mas também é verdade que para o gosto dos russos tais filmes são quase um crime contra a humanidade: nós russos não somos assim, não atuamos assim, não nos movemos, não falamos, não sorrimos assim…

Mas devemos superar nossa repugnância e continuar analisando.

Vasili Shulzhenko (EUA). Liev Tolstói

É importante que nós registramos a intercepção da clássica russa pelo cinema ocidental. Não por acaso em 2016 a BBC também apresentou sua adaptação do romance de Liev Tolstói “Guerra e Paz”! Até podemos pressupor que os produtores ocidentais saibam melhor como interpretar nossos clássicos. Se não os ingleses, quem pode entender melhor o funcionamento do elitismo dentro Império <4>?

O elitismo do Império Russo <5> é um tema que foi ignorado ou ridicularizado no período soviético, mas hoje no contexto da Restauração <6> o elitismo vira atual, só os produtores russos tem medo de Liev Tolstói e preferem os roteiros mais simplistas tipo “Duelista”, filme russo de 2016, também concentrado no elitismo do século XIX <7>.

Podemos resumir que ao parecer o moralismo, o populismo, o anarquismo e os demais “ismos” dos grandes autores russos cada vez sejam menos interessantes para os produtores da cultura atual (tanto no Ocidente, como na Rússia), que visam mais o materialismo, o elitismo e o ordem.

  1. https://www.marxists.org/portugues/lenin/1908/09/24.htm
  2. Leia mais sobre o conceito de “flowering and increasing complexity” de Konstantin Leontiev em https://en.wikipedia.org/wiki/Konstantin_Leontiev
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Voyna_i_Mir
  4. Leia mais sobre o elitismo inglês aqui: Kate Fox, Watching the English: the hidden rules of English behaviour. 2004
  5. http://guiademoscou.blogspot.ru/2015/12/imperio-de-cabeca-para-baixo.html
  6. http://guiademoscou.blogspot.ru/2016/01/sobre-os-gemeos-catedral-de-cristo.html
  7. https://en.wikipedia.org/wiki/The_Duelist_(2016_film)

P.S. Para todos os fãs de Liev Tolstói sugerimos muito assistir os grandes filmes soviéticos:

Guerra e Paz de 1967 em 4 partes (legendado em português)

https://vk.com/video252157879_170064586

https://vk.com/video252157879_170035073

https://vk.com/video252157879_170032306

https://vk.com/video252157879_170025002

Anna Karénina de 1967 em 2 partes (pode-se ativar as legendas em inglês)

https://www.youtube.com/watch?v=Y5YutODgC0k&feature=youtu.be

https://www.youtube.com/watch?v=x5QdY1HWok0

As fotos da residência provinciana de Liev Tolstói perto de Tula em Yasnaia Poliana: http://fatikova.livejournal.com/154073.html

 


Mat: uma língua paralela

97d46662415fe8e86477527910f72e34“…Dentre os palavrões russos, há quatro palavras que são consideradas especialmente tabus. Apenas direi que começam con as letras (transliteradas) b, e, p e kh e signifcam, respectivamente (imaginem o equivalente em português chulo): uma mulher que vende ou dá facilmente o sexo, o ato sexual, o órgão sexual feminino e órgão sexual masculino. O que é interessante é que a partir de apenas essas quatro palavras, através da colocação de sufixos, prefixos, adjetivação, substantivação, verbalização etc., são formadas centenas de outras palavras e expressões a ponto de se poder formar longas e complicadas frases (uma verdadera linguagem paralela) utilizando apenas derivados desses quatro vocábulos. Mat é o grupo dessas quatro palavras mais todas as outras que delas derivam. O tabu sobre esse grupo de palavras era tão forte que, antes de Perestroika, mesmo na literatura de ficção mais realista, as expressões do mat não eram impressas, apesar de você escutá-las ao passar por certos ambientes singelos como uma obra em construção ou uma prisão ou perto de un grupo de adolescentes. Atualmente, essas palavras são ocasionalmente impressas na literatura russa pós-soviética, mas continua a aura de tabu especial sobre elas dentro do grupo maior dos palavrões russos em geral”.

De livro de Agelo Segrillo “Os russos”